terça-feira, 10 de abril de 2018

Julgamento


Aos quem sem dó te imputam toda a culpa
Não te deixes arrastar ao jugo do remorso,
Não te ouçam o sentido pranto por desculpa
Os que anseiam te jogar ao frio do calabouço.

A quem culpada julga a própria infensa vítima
Assume a crueldade de um infame e rude crime,
Transbordando o azedume da perfídia e do ciúme
Através de uma obsessiva vingança como máxima.

Deixa-lhes o desprezo como forma de castigo
Na altiva atitude que se transforma em tormento
De quem se mostra alguém melhor que o inimigo.

Assim deixarás para quem odeia o sofrimento
De fazer do próprio coração sem pena o jazigo
E de busto duro erguer-se em funesto monumento.

Porto Alegre, 10 de abril de 2018.

Charge: Diplô Brasil

Edu Cezimbra

segunda-feira, 9 de abril de 2018

No limite do amanhã


O filme de ficção-científica "No limite do amanhã" (Edge of tomorrow) mostra que é preciso morrer muitas vezes até aprender a não repetir o erro.

Não sei se o roteirista do filme é místico; já eu me atenho aos aspectos, digamos, filosóficos do filme em tela.

Ao assistir o filme ocorreu-me que se presta bem a uma analogia com a história tão repetitiva do nosso país.

A morte ocorre enquanto repetição até aprendermos a lição, isto é, até não se repetirem os mesmos erros.

O personagem morre e ressuscita sempre no mesmo dia, o que se repete muitas vezes. Só ele se recorda dos erros que levam todos ao desastre amanhã.

“Amanhã será outro dia”? Não até ouvirmos quem sabe o que acontecerá amanhã, caso sigamos agindo do mesmo modo.

Ou seja, se não forem evitados os equívocos que costumeiramente repetimos não haverá um amanhã, mas a repetição do mesmo dia.

No Brasil, sempre é bom lembrar, já houve um dia 31 de março, que se tornou o mais longo primeiro de abril da nossa história.

Aliás, eternizado pelos nossos políticos lenientes e pusilânimes no que diz respeito à remoção de um arraigado entulho autoritário.

Entulho autoritário que se parece ao aparelho autônomo que aniquila a todos no filme. 

No Brasil, apesar de todos os mecanismos constitucionais, a batalha é perdida contra o conservadorismo autoritário, que anula qualquer tentativa de democracia.

No filme, o clímax acontece quando não há mais possibilidade de ressuscitar, ou melhor, de voltar no tempo.


Acho que também chegamos a um clímax na Brasil, já que não podemos nos permitir voltar no tempo...  

Porto Alegre, 9 de abril de 2018.

Imagem: divulgação

Edu Cezimbra

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O que mais?


O que mais?, pergunta clássica entre homeopatas treinados na arte de investigar a história clínica de um paciente. A pergunta tem o propósito de evitar respostas “sim” ou “não”, que dizem pouco dos pacientes.

Mais alguma coisa, freguês?, pergunta frequentemente usada por balconistas após atender um pedido de cliente. A pergunta é feita com o intuito de prosseguir ou não o atendimento e a resposta pode ser “só isso” ou “isso ou aquilo” (que pode ser a quilo ou a litro).

Curioso, não? Homeopatas e vendedores não tem nada em comum mas se valem usualmente quase que da mesma pergunta.

O primeiro com o intuito de não forçar respostas direta; o segundo desejando respostas objetivas para apressar a fila. 

Para que tantas perguntas? deve estar se perguntando o meu caro e raro leitor.

Todas essas perguntas para perguntar: o que está acontecendo aqui?! Assim mesmo, com uma pontuação de perplexidade porque o momento é mesmo de muita perplexidade, ao menos para intelectuais como juristas, filósofos e sociólogos.

E para este humilde blogueiro metido a escritor e poeta…

Será que perdemos a noção de realidade? Estaremos vivendo uma alucinação esquizofrênica coletiva? O que andamos bebendo ou fumando?!…

Sigo me perguntando: a quem interessa tantas mentiras descaradas e tantas manipulações da opinião pública?

Dizem que quando se pergunta algo é porque já temos a resposta. Pode ser, mas aqui concluo com outra pergunta que não pede uma resposta objetiva pela complexidade do “paciente”: o que mais pode acontecer nesse país tão esquizofrênico?

Outra coisa: não venham me perguntar “mais alguma coisa, freguês?” porque perderam o “freguês”...

Porto Alegre, 6 de abril de 2018.

Imagem: Google

Edu Cezimbra

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Um país sem nome


No "país sem nome" o estado é mínimo, mas tão mínimo que cabe em uma saleta, mesmo assim sub-locada para cobrir as despesas.

Os habitantes desse "país sem nome" não são chamados de cidadãos mas de "colaboradores".

Bens comuns, tais como água e energia elétrica, são consideradas "commodities".

Escolas foram todas fechadas, agora tem só "educação à distância", paga, naturalmente...

Saúde só nas Farmácias do "Seu Janjão", porque tratamentos médicos têm preços proibitivos.

Palavras obscenas no "país sem nome": todas as que contenham direitos: direitos humanos, direitos trabalhistas, direitos das mulheres, direitos políticos, inclusive o Direito.

Manifestações de protesto, nem pensar! Mas se os "colaboradores" ouvirem um "plim plim" saem todos salivando para a rua para gritar o que o dono mandar.

Para entender o alcance dessas proibições basta dizer que a Constituição Federal foi substituída pela Bíblia, com ênfase no Velho Testamento e seus preceitos morais.

A mídia é uma mídia só embora tenha muitos jornais, rádios e TVs, mas todas repetem as mesmas mentiras regularmente.

Partidos políticos, a mesma coisa, tem muitos, mas todos seguem a cartilha neoliberal.

Como o país sem nome vai participar da Copa do Mundo, mais uma vez, com uma seleção de "estrangeiros", foi preciso escolher um nome ou uma sigla para manter a proposta da falta de identidade. Entre eles, os mais cotados são:

EIA - Estados Independentes do Agronegócio

ESA - Estados Sociedade Anônima

ECIA - Estados Companhia Limitada

A escolha não será em um plebiscito (outra palavra proibida) mas por publicitários regiamente contratados.

Por falar em publicidade, já tem cineasta dirigindo uma série sobre o país sem nome (por enquanto). A série já tem nome: "Tatcher no País das Maravilhas".

Ah sim, o presidente do "país sem nome" é chamado de "CEO" e foi escolhido pela Diretoria, encantada com sua proposta: "liberal na economia e conservadora nos costumes".

Porto Alegre, 5 de abril de 2018.

Imagem: Google

Edu Cezimbra

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Transfusão poética




Pressinto uma ferida
Aberta
Em mim

Sangro aos jorros
Em interna
Copiosa
Hemorragia

Mãos
Não estacam a
Sangria
Verborragia
Desatada por silêncios
Forçados
Gritos coagulados
Sussurros abcessados
Verbos tumores
Rompem-se

Em coma
Suturo versos
Penso poemas
Transfusão
Poética
Ressuscita-me



Porto Alegre, 4 de abril de 2018.

Imagem: Nunzio Paci

Edu Cezimbra

Asas à imaginação


Porto Alegre, 4 de abril de 2018.

Design: Canva

Edu Cezimbra

terça-feira, 3 de abril de 2018

Tudo pode acontecer


- Não tenha dúvida, assegura o homem sério para seu interlocutor - tudo pode acontecer...

- Mas... aí aumentam as minhas dúvidas, rebate o rapaz recém-saído da adolescência.

Verdade - pensa o homem com seus botões - tenho que escolher melhor minhas palavras...

Respirando fundo, suspira e emenda sem convicção, que quero dizer, não leve ao pé-da-letra minhas palavras, digo, não quis dizer isso...

- Diga!

Dizer o quê? pergunta a si mesmo o homem, enquanto coça a cabeça e toma ares de quem está considerando a questão.

O que esse tio quer me contar, afinal, indaga-se o jovem, deve ser muito grave...

Para situar o meu caro e raro leitor, a cena é em uma sala austera, nem um pouco confortável, dessas usadas em interrogatórios de filmes policiais.

Uma mesa de madeira e duas cadeiras duras embaixo de uma lâmpada incandescente fraca tornam a sala sombria e abafada, o que aumenta a tensão entre os dois interlocutores.

Se o leitor se afastar um pouco mais verá que a sala é o cenário de uma peça de teatro montado em um palco italiano de um auditório.

E por que o homem está cheio de dedos para contar ao rapaz o que de fato ocorreu?

Talvez uma má notícia, ou quem sabe uma revelação surpreendente para o jovem.

O fato é que o homem não esconde sua tensão e o suor escorre de sua fronte enquanto ele pisca repetidamente.

- Tu precisa encarar os fatos, meu garoto, diz o homem preparando o terreno para não traumatizar o jovem, que a essa altura já não esconde seu incômodo.

- Afinal, quem é o senhor?! Por que o diretor me mandou pro auditório? Eu não fiz nada demais!

- Calma, meu filho, não é nada grave, esqueci de me apresentar, sou o pai da Claudinha, sua colega...

- O que tem ela?! Eu não tenho nada com ela!

- Tem sim, isso que eu vim te contar... Claudinha é sua...- como vou dizer? - admiradora de há muito ...

Agora sim, o jovem não captava mais nada da conversa, nunca imaginaria uma conversa tão surreal.

Claudinha, minha admiradora?! O que esse coroa quer comigo, pergunta-se desconfiado...

- Claudinha é muito tímida, então me pediu que eu viesse te perguntar se tu não queres namorar com ela, disse, enrubescendo, o constrangido pai.

- Vocês dois são doidos varrido ou estão de sacanagem comigo? gritou o jovem levantando-se bruscamente e derrubando a cadeira ao sair correndo do palco.

- Como eu disse antes, tudo pode acontecer, disse o ator, concluindo mais uma peça do grupo de teatro da escola, sob as gargalhadas e aplausos entusiasmados da platéia de estudantes. 


 Porto Alegre, 3 de março de 2018.

Imagem: Google

Edu Cezimbra

segunda-feira, 2 de abril de 2018

Cinema particular



Porto Alegre, 2 de abril de 2018.

Design: Fotor

Edu Cezimbra

O Jogo da Imitação


Assisti ontem o filme baseado na vida de Alan Turing," O Jogo da Imitação", que trata da descoberta do código - considerado até então indecifrável - de uma máquina de criptografia nazista denominada "Enigma". 

Consta que esta descoberta abreviou a guerra em 2 anos e poupou em torno de 14 milhões de vida. 

A "Máquina de Turing", hoje conhecida por computador, foi desenvolvida com esta finalidade: decifrar o código secreto nazista.

Impossível para a máquina era prever o triste fim de seu genial criador, que se suicidou aos 41 anos, após 1 ano de tratamento hormonal para castração química, condenado em 1951 pela "justiça" inglesa pelo crime de obscenidade por sua homossexualidade. 

Esta lei condenou à prisão ou castração química milhares de súditos de Sua Majestade entre 1865 e 1967 (?!!). 

Ah sim, Alan Turing foi "perdoado" pela Rainha Elizabeth, em 2013 (?!!)...

Mais uma "ironia da história", Turing ajudou a derrotar o nazismo alemão, mas não conseguiu usufruir da liberdade em seu país, por quem tanto lutou.

Porto Alegre, 2 de abril de 2018.

Imagem: Google

Edu Cezimbra