quinta-feira, 19 de julho de 2018

O Diário Secreto de Branca de Neve


Querido diário real,

A Rainha sempre se vê no espelho mágico, e hoje mudou a pergunta: será que todas as Rainhas são tão más quanto eu?

Para sua surpresa, o espelho mágico respondeu: - sim, minha rainha, há rainhas mais malvadas que vós. Leia Shakespeare e estude a mitologia grega para saber mais.

Foi o início das minhas atribulações. Como eu andava sempre por perto, a Rainha espezinhava-me continuamente, não por inveja da minha beleza, mas para superar as outras rainhas em malvadeza.

A Rainha ficou ainda mais furiosa quando soube a quantidade enorme de princesas, como eu, que são boazinhas e sempre acham o seu príncipe encantado e são felizes para sempre…

Até parece que ela nunca foi princesa… Espera, querido diário… Ela foi uma princesa boazinha também? Por que tornou-se tão má?

Desconfio que foi depois que ela assumiu o trono com a morte do Rei, meu adorado pai. Tornou-se irritada com tudo e com todos, especialmente comigo…

Outro dia, acho que teve uma recaída, pois a ouvi dizendo para o caçador real que queria tocar meu coração, que meiga, não?

Hoje, o caçador vai me levar para passear na floresta. Estou curiosa para conhecer os tão falados Sete Anões...dizem que eles são muito engraçados, sempre cantando e trabalhando na sua mina de diamantes.

Querido diário, mas o que eu mais desejo é encontrar o meu príncipe encantado. A Rainha Má prometeu-me que se eu dormir bastante vou acordar ao seu lado.

Mal posso esperar para ser feliz para sempre e ser uma Rainha Má quando reinar...

Porto Alegre, 19 de julho de 2018.
Imagem: cena de "The Huntsman: Winter’s War" 
Edu Cezimbra

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Sexto Sentido


Porto Alegre, 18 de julho de 2018.

Imagem: Pinterest

Design: Canva

Edu Cezimbra

Monstros domésticos


O anúncio de “Domestica-se monstros” chamou minha atenção por inusitado, naquela manhã úmida e sombria.

Segui a seta indicativa, curioso. Afinal, não é todo dia que se encontra alguém dedicado a esta, digamos, arte, ou se quiserem, ofício…

Ouvi, ao longe, urros medonhos que sinalizavam a monstruosidade da criatura em processo de domesticação.

Um grupo de camponeses portando ancinhos observava, de uma distância segura, as manobras dos domesticadores.

- Que monstro estão domesticando? - perguntei a um senhor de longas barbas brancas.

- Meu caro senhor - respondeu cortesmente ele - acharam um terrível dragão naquela caverna e a domesticadora está convencendo-o a sair para fora da caverna.

- E como ela, uma frágil dama, consegue acalmar esse monstro devorador de homens?! - indaguei atônito.

- Ah, meu filho, é que esse dragão é fêmea!


Moral da fábula: “De perto, o monstro não é tão feio quanto pintam.”

Porto Alegre, 18 de julho de 2018.
Imagem: Artsy Magazine
Edu Cezimbra

terça-feira, 17 de julho de 2018

Íris


À Íris, minha neta poeta, no seu aniversário.


Porto Alegre, 15 de julho de 2015.

Design: Canva

Edu Cezimbra

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Jeitinho brasileiro


“Jeitinho brasileiro”, podemos até falar em uma instituição genuinamente brasileira, “made in Brazil”, tamanho seu alcance no imaginário popular.

- Quem não chora não mama, cara!

Aí, quem sabe o “jeitinho brasileiro” não tenha mesmo origem na puericultura, vá saber…

Aliás, já viu uma criança falando com a mãe com uma carinha pidona: - Ah, mãe, me dá…Ah, me dá, mãe...

Assim, entre o buá e o ah tem um dádádá… - um jeitinho “meigo”?

Muitos creditam ao “jeitinho brasileiro” as mazelas nacionais, será mesmo?

Vejamos: o “jeitinho brasileiro” nestes casos é diretamente associado à tão combatida quanto praticada corrupção.

O ato de “furar” uma fila no banco é tão grave quanto guardar malas de dinheiro desviados do banco.

O “gato” na fiação elétrica ou na TV a cabo é mais criminalizado que a privataria tucana que deu um “gato” nas empresas estatais brasileiras.

Aqui já dá para se perceber a tentativa de dissimular a grave iniquidade que assola o país e cria tantas perversidades.

 - Fazem o “jeitinho brasileiro” parecer brincadeira de criança mesmo...

Tanto que chegam a imputar a culpa pelo “jeitinho” aos negros escravizados no Brasil.

Chegam ao ponto de culpar os africanos pela escravização, um “jeitinho brasileiro” na história da colonização e espoliação da África pelos portugueses e europeus.

Então, meu caro e raro leitor, será que o Brasil não tem jeito porque tem “jeitinho brasileiro” ou tem “jeitinho brasileiro” porque não tem jeito?

Digo mais: melhor responder logo estas questões pois vem aí mais uma eleição presidencial com o típico “jeitinho brasileiro” dos políticos... 

Porto Alegre, 16 de julho de 2018.
Charge: Angeli
Edu Cezimbra

sábado, 14 de julho de 2018

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Ilha da Fantasia


Migrantes recusados pelos EUA, em 1900: por enfermidades graves, deficientes mentais, criminosos, prostitutas, bígamos e anarquistas.

Eram examinados na Ellis Island, também chamada a “Ilha da Desilusão”, nome apropriado…

Fico a imaginar as artimanhas dos fiscais ianques para detectar deficientes mentais, criminosos, bígamos, anarquistas…

- Tu tens 20 segundos para me dizer quem está com a carinha triste nestes desenhos, rápido (esse teste era para “dignosticar” deficientes mentais, que eram marcados a giz com um X.

- Nome da 1ª mulher?

- Mary.

- Nome da 2ª mulher?

- ???

- Bígamo…

- Qual o nome do presidente dos EUA?

- ???

Qual o nome da 1ª Dama dos EUA?

- ???

- Anarquista!

Por essas e outras, para esses imigrantes a Ellis Island era chamada a Ilha das Desilusões.

Muitos desses imigrantes rejeitados pelos EUA vieram dar com os costados no Brasil.

Saiam desiludidos dos EUA, mas ao mesmo tempo aliviados…

Eram tamanhas as promessas de facilidades para os imigrantes que o lugar onde eram recebidos no Brasil bem que poderia ser chamado de “Ilha da Fantasia”...  

Porto Alegre, 13 de julho de 2018.
Imagem: Google
Edu Cezimbra

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Porta aberta


“Pobres são os que tem a porta fechada”, escreve Eduardo Galeano.

Segundo ele, a frase lapidar foi proferida por uma menininha de três anos – e por que não?

Desconfio que a sentença não foi dita em tom reprovador aos que são ricos.

Não. Quem teve ou tem filhos criados em apartamentos há de reconhecer que as crianças anseiam por portas abertas para sair correndo porta a fora…

Para elas, o maior "sonho de consumo" é correr em liberdade. Logo, se não podem usufruir desse bem precioso, são pobres. Tem lógica…

Há uns dias atrás, contarem-me que um avô comprou uma casa de praia e levou seu neto para conhecer a nova propriedade.

Qual foi a primeira reação do netinho criado em apartamento? Perguntar se poderia brincar na rua da pacata cidade balneária.

Criança é assim, tem instinto de sobrevivência mesmo, sabe que a maior riqueza do ser humano é ser livre...

Porto Alegre, 12 de julho de 2018.
Imagem: Cabo Polonio, Uruguai
Edu Cezimbra

O campinho


Numa cidadezinha esquecida do mundo
quem não teve um campinho
para um jogo de bola
- não era pelada!
A bola era de borracha,
muitas furavam nos espinhos
ou no arame farpado.
O campinho meio esburacado
tinha mais guanxuma que gramado,
era todo desnivelado,
ganhava quem descia
perdia quem subia
era todo ao contrário,
não tinha lateral,
de um lado era um muro
do outro uma valeta,
num lado a bola não saia
do outro a bola se perdia...
O jogo era até 10, virava em 5,
às vezes não acabava
quando uma vidraça se quebrava
- quem quebrava pagava!
Em uma cidadezinha esquecida
a bola é redonda feito mundo...

Porto Alegre,12 de julho de 2018.
Imagem: Google
Edu Cezimbra

terça-feira, 10 de julho de 2018

O Diabo e a Morte


O Diabo foi dar seu passeio noturno habitual pela encruzilhada e qual não foi sua surpresa ao encontrar a Morte, cabisbaixa, sentada em uma pedra.

- Boa noite, Dona Morte, quanta animação esta noite! - zombou, soltando sua característica gargalhada diabólica.

Erguendo lentamente a sua caveira com um ranger tétrico de suas vértebras cervicais, a Morte trovejou: - vá para o inferno, que diabo! - irritou-se a velha conhecida do Chifrudo.

O Diabo, sem perder a graça, cutucou a Morte com seu tridente em chamas: - vamos sacudir o esqueleto, Dona Morte, organizei uns shows de bandas metaleiras no inferno para infernizar ainda mais os condenados!

- Diabo, vai pros quintos do inferno, estou podre de cansada, não aguento mais tanto serviço, a humanidade insiste em morrer feito moscas, a seguir assim o inferno vai ter uma superpopulação maior que a Terra…

- Pior que é, Dona Morte, aqui pra nós, a seguir assim, o inferno estará cheio de gente com boas intenções…

- Por que não vamos falar com o “Velho” e reclamar dele, afinal o Céu, exceto por alguns anjos, está praticamente desocupado por falta de interessados.

- O “Velho” é teimoso, insiste no tal “livre- arbítrio”... - resmunga o Tinhoso.

- “Livre-arbítrio”...mimimi...em que mundo Ele vive, meu Deus! Parece que não saiu do Renascimento!

O Diabo que não perdia a chance de criticar Deus, emendou ferino: - sim, Ele não saiu do teto da Capela Sistina – e soltou fumaça pelas ventas, sem esconder seu rancor.

- Viu no que deu tu passar o petróleo das profundezas da Terra para a humanidade?! Agora é essa mortandade que quase não dou conta: matam-se  pelo petróleo e o seu idolatrado “ouro negro” mata mais ainda…


Ao ouvir essa triste verdade, o Diabo senta em outra pedra saboreando sua vitória sobre o livre-arbítrio humano, mas logo fica cabisbaixo; mordendo o rabo, solta fumaça por todos os seus orifícios.

Percebe que também perdera seu domínio sobre a humanidade...

Porto Alegre, 10 de julho de 2018.
Imagem: Gustave Doré
Edu Cezimbra