segunda-feira, 25 de setembro de 2017

sábado, 23 de setembro de 2017

Visões de Mundo



Quando Iarima viajou para Nova Iorque, na companhia do antropólogo Kenneth Good, disse que ia para a aldeia de seu marido.

Iarima é uma jovem Yanomami, e para ela o mundo é composto de aldeias espalhadas pela floresta.

Já no extremo sul do Brasil, o mundo é composto de estâncias de gado espalhadas pelo Pampa.

Para os Yanomamis é suficiente a noção matemática do um, do dois e de muitos.

Já para o gaúcho é suficiente um churrasco, dois tragos de canha e muito vanerão.

A piada (?) serve para ilustrar o quanto uma visão de mundo é formada pelo meio em que vivemos ou pela ideologia.

Um parêntese: podemos dizer que hoje não temos visão de mundo, mas "televisão do mundo".

Assim, ao invés de apreendermos o mundo "no mundo" o "apreendemos" em uma caixa com um tubo ou uma tela plana.

Voltemos a Iarima: que eu saiba ela não transportou a sua aldeia para Nova Iorque, - quando sentiu saudades, quis retornar para a sua floresta na Amazônia venezuelana.

Ao contrário do gauchão citadino, que transporta a estância, quando se muda de "mala e cuia" para galpões de estância, em pleno centro de Porto Alegre, durante um mês (setembro)!

Porto Alegre, como todos sabem, é uma metrópole, com todas as características de uma cidade grande e moderna.

Por isso, não tem uma "Rua das Tropas", por onde conduzir a boiada, então fica faltando o gado, embora não falte carne gorda para o churrasco...

Em compensação tem a Avenida Cavalhada, atualmente duplicada, por onde transitam os cavalos, cavalgados durante as celebrações da "Revolução Farroupilha". 

Também Iarima, quando se muda - e os Yanomamis se mudam muito, pois são nômades - , leva os seus pertences nas costas (os Yanomamis não conhecem a roda, convenhamos, de pouca valia em uma floresta densa). 

A visão de mundo de Iarima, embora pareça "primitiva", com o advento das telecomunicações, inspirou em McLuhan, teórico da comunicação, a figura da "aldeia global".

A propósito, será que Iarima e seu povo Yanomami, e, os gaúchos, entenderiam a metáfora? 


Porto Alegre, 23 de setembro de 2017.

Foto: ISA
 
Edu Cezimbra







sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A Quadratura do Círculo Vicioso


Girando em círculos, baratas tontas - assim parecem os homens -, vistos do alto. 

Jogadores atrás de uma bola, caçadores em seus cavalos atrás de uma indefesa raposa, motoristas rodando em seus carros sem parar para descansar, para pensar...

Este estilo de vida "civilizado" parece uma corrida de revezamento, mas sem final, ou melhor, finalidade.

Ou um jogo de futebol, onde os jogadores ficam correndo atrás da bola, dando chutões para fora, em um frustrante 0 X 0 que não termina nunca, haja preparo físico!

Parece um labirinto, em que se entra e se fica girando, girando, pelos mesmos corredores, sem achar uma saída.

Pior, não querendo sair dessa imensa caverna de Platão de um mundo mecanizado, enrijecido e desumanizado.

Somos orgulhosos dessas correntes que nos prendem nessas engrenagens, que nos fazem correr apressados.

Parecemos o coelho de Alice, dando voltas sem cessar, olhando o relógio e com pressa, muita pressa.

Exibimos como provas de sucesso estas correntes presas em caixas sobre rodas, que entram em outras caixas, para trabalhar entre quatro paredes (caixa), voltar para outra caixa, até morrer e ser enterrado em um caixão...

Como definiu argutamente um índio Kaingang, " o povo das caixas":

“O mundo deles é quadrado, eles moram em casas que parecem caixas, trabalham dentro de outras caixas, e para irem de uma caixa à outra, entram em caixas que andam. Eles vêem tudo separado, porque são o Povo das Caixas…”

Paradoxal, não? Nossos círculos viciosos acontecem em quadrados, comprovando, pateticamente, a "quadratura do círculo vicioso"...


Porto Alegre, 22 de setembro de 2017.

Imagem: Pitu Freixas

Edu Cezimbra 

 


quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Vovô conta uma historinha


Avós são pais reciclados pelos netos.

Ser despertado aos gritos e safanões pelos netos é tão bom quanto ser despertado pelo canto dos sabiás.

E com a ajuda da vovó: 

- O vô vai contar uma historinha pra vocês...

- Mas eu escolho a historinha, impõe categórica a sua netinha.

- Tá, e qual é a historinha?

- Essa aqui (Ronaldinho Gaúcho e a Turma da Mônica)...

- Vamos lá, então... 

-  (...) A bola caiu num poço! 

- Vô, tu não leu o "tchibum!" ...

- Íris, tu já sabes ler?!!

Dá pra imaginar os olhinhos da minha netinha, brilhando de orgulho , enquanto o netinho Guadua ri muito com os sustos do Ronaldinho Gaúcho, com os olhos também brilhando...

Sim, é mesmo uma dádiva ser avô e poder contar uma historinha pra você, - meu caro e raro leitor de olhos brilhantes.


Porto Alegre, 21 de setembro de 2017.

Imagem: Pinterest

Edu Cezimbra


terça-feira, 19 de setembro de 2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Onde cantam os sabiás



Porto Alegre, 18 de setembro de 2017.

Foto: Francisco Cezimbra

Design: Canva

Edu Cezimbra

domingo, 17 de setembro de 2017

Pescador de Dourado


Com o brilho de nosso poetinha maior, Vinícius de Moraes!


Porto Alegre, 17 de setembro de 2017.

Foto:  Anne Beringmeier

Design: Canva

Edu Cezimbra

sábado, 16 de setembro de 2017

Balanço





Já temos temas
Temos tremas
Temos tremores
Temos tramas
Temos tramóias

Só não temos trabalho
Não temos baralho
Não temos carvalho
Não temos alhos
Não temos bugalhos

Mas temos embaraços
Temos golaços
Temos chumaços
Temos palhaços
Temos bagaços

Nos falta fama
Falta flama
Falta flâmula
Falta flamenco
Falta flagrante
                                        

Porto Alegre, 16 de setembro de 2017.

Imagem: Pinterest
Edu Cezimbra

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Uma canção no rádio


"Pôxa, como foi bacana te encontrar de novo"
O radinho de pilha captava a Rádio Nacional, já tarde da noite, meu irmão mais novo escutava deitado o programa ao vivo, entrevistando Gilson de Souza, cantor e compositor que lançava o álbum "Pôxa".

Bem baixinho, para não acordar nossos pais que dormiam no quarto ao lado.

"curtindo um samba junto com meu povo"
Era por volta de 1975, e, eu lembro que gostei muito do samba, tanto que pedi para aumentar o volume do radinho, ao que ele se negou, prudentemente, diga-se.

E eu não estava enganado. "Pôxa" foi mesmo um sucesso, sendo muito tocada a partir de seu lançamento, tornando conhecido o cantor e compositor Gilson de Souza, antes disso um cantor da noite paulistana.

Conto isso para mostrar a potência de um mísero radinho de pilha, bem sintonizado, no imaginário de um adolescente.

Já se passaram mais de 40 anos e a canção permanece gravada na minha memória, já não tão boa, para as canções que tanto gostava de escutar.

As rádios brasileiras, pasmem, tocavam muita música brasileira!

Era natural escutar compositores como Chico Buarque, Gil, cantoras como Elis Regina, Clara Nunes, duas vozes inesquecíveis para mim.

E olha que eu morava em uma pequena cidade do interior do RS, mas a única rádio, na época, tocava muita MPB de qualidade.

Não quero te chatear, meu caro e raro leitor, comentando a cruel realidade da programação das rádios atuais.

Fiquemos com Gilson de Souza e seu samba clássico "Pôxa" (sem a bronca de meu pai - "apaga esse rádio, guri!"):




 Pôxa,
Como foi bacana te encontrar de novo
Curtindo um samba junto com meu povo
Você não sabe como eu acho bom
Eu te falei que você não ficava nem uma semana
Longe desse poeta que tanto te ama
Longe da batucada e do meu amor
Pôxa,
Por que você não pára pra pensar um pouco?
Não vê que é motivo de um poeta louco
Que quer o teu amor pra te fazer canção
Pôxa,
Não entre nessa de mudar de assunto
Não vê como é gostoso a gente ficar junto
Mulher o teu lugar é no meu coração

Porto Alegre, 15 de setembro de 2017.

Foto: Google

Edu Cezimbra

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Três amigos


Três amigos, em uma mesa de botequim:
     

- A coisa tá dura, sem ofensa, Paulo Duro...

- Sem reclamação, João Romão, com perdão da rima pobre...

- Não perca a fé, vote em mim, José Café!

- Sem chance, até a Teologia da Prosperidade não prospera com essa crise.

- Ora, troca o "sem" pelo "cem": aí terá cem chances!

- Que nada, com esse governo estamos sem saída...

- A saída é a luta popular!

- Sem violência, sem luta de classe.

- Se olharmos bem há "cem saídas", com "C"!

- Cem candidatos é o que temos.

- Com "S" ou com "C"?...

- Sabem de uma coisa? Vou é encher a cara pra esquecer...

Maria Salete, a garçonete, secando a mesa desce mais uma "gelada", e anuncia:

- Cem dúvidas...com "C"!

Porto Alegre, 14 de setembro de 2017.

Imagem: Google

Edu Cezimbra