quinta-feira, 31 de março de 2016

Sobrevivente






Acordo tonto
Porque sonhei
Visão fatal
Tive certeza
Tu morreste
Assim mesmo
Te sinto perto
Sobrevivente


 "Foi lá por 85"

Edu Cezimbra

quarta-feira, 30 de março de 2016

Pacto Faustiano



Conquistarás teu espaço
À custa de teus
Mais caros amigos
Assim delatarás tua honra
Aos guardiões da cobiça
Corromperás tua lealdade
No gozo fácil das orgias
Destruirás tua estima
Na submissão aos interesses
Sacrificarás teu caráter
Em troca de aplauso
Matarás teu amor
Com o punhal do poder
E quando olhares para trás
Terás fantasmagóricas visões
De um suicida em potencial


 "Foi lá por 85"

Edu Cezimbra

Coleção Poética Primavera/Verão

"Sempre fica um pouco de perfume nas mãos de quem oferece flores."  


PRIMAVERA

O dia vibra em notas de sol irradiando luz das árvores acompanhado por pássaros canoros e galos estridentes.

Nuvens cortesãs, com suas saias rodadas, acompanham o Rei Sol, em toda sua majestade, sobre um manto azul celeste.

Um pé de vento faz chuva de folhas secas molhar de amarelo o chão da mata.

Sejamos como folhas verdes de pariparoba que recebem o sol e a chuva com a mesma atitude amorosa de sua forma de coração.

Sejamos como árvores que brotam perto de cercas e logo as ultrapassam lançando suas copas benfazejas para todos os lados.

 
VERÃO

As cigarras soam suas campainhas anunciando o verão enquanto as formigas seguem cortando folhas indiferentes às fabulações humanas.

A noite vem devagar apreciando um céu cheio de nuvens róseas de por-do-sol

Lembrando Castro Alves e Vinícius de Morais há no ar uma encantadora poesia e a brisa do Brasil beija e balança folhas verdes e asas de borboletas azuis, brancas, amarelas e pretas.

As cigarras na mata entoam um alarme : vem chegando o verão, estamos em plena fecundação; homens, parem a devastação e abram alas para a gestação da vida em sua plenitude.

Primavera/Verão de 2013

Edu Cezimbra

Foto de bolsa criada por Regina Ferreira

Tempos Modernos





Calo
Porque não escuto minha voz
Dissolvida na fúria andróide
Das celebrações cibernetizantes

Grito
Para que meu gritar horrendo
Sensibilize os microcircuitos
Dos terminais eletrônicos

Assisto
Com olhar estupefato
A mais melancólica visão
Da robotização do homem


Choro
Com minhas lágrimas
Misturadas ao lacrimogẽnio
Gás saturado das prisões



"Foi lá por 85"

Edu Cezimbra

COMÍDIA - A mídia comédia






 COMÍDIA


Não obstante tantos dissabores

Ainda sobrou esperteza neste ser

Não tanto para safar não

Mais para desenganar talvez

Berrar mais uma vez sem mais

Limpar os bagulhos da alma

Despovoar a horrorlândia banal

Coletar lixo contemporâneo

Incinerar ícones modernos

(A deusa eletrônica resistindo

Nos acordes ensurdecedores

Da mídia comédia)

Presépios, anjos e altares

De neon, gases voláteis

Efêmeros

"Foi lá por 86"

Edu Cezimbra

terça-feira, 29 de março de 2016

Palavrório





Maravilhosas são vocês palavras

Cheias de mistérios

Envolventes musicais

Beleza pura

Doidice maluquice

Porque não?

Porque não romper as amarras do medíocre

E se deixar levar pelo sublime?


Sublimes mares do sul

Onde as ondas beijam democráticas

Os seios de mulheres lindas

E os amores florescem lépidos


As palavras soam maravilhosas

Cheias de sons inebriantes

Em louvação à vida!


"Foi lá por 86"

Edu Cezimbra 

Foto de Francisco Cezimbra
 

Onde fica isso?

 XIX
A Catalunha
Como será?
Tão inóspita quanto o nome?
E a Bretanha?
Que mistério naquele nevoeiro.

Rampur
Onde fica isso?
Ó Marajá de Rampur
Me mostra onde fica isso!
"Foi lá por 86"
 Edu Cezimbra

segunda-feira, 28 de março de 2016

A prova


 A cada vez que tentava, mais se apavorava e desistia, mas não queria desistir de vez.

Assim, sofria muito... se lamentava, se culpava, não se sentia bem. 

Na verdade, não tinha persistência. Só tinha persistência para um constante sentimento de culpa, esse sim, persistente, incansável, invencível.

Então, um dia, começou a repetir para si mesmo, inúmeras, repetidas vezes que não podia desistir...

Claro, que lá no fundo, não acreditando que iria conseguir.

Mas por que não?! se outros conseguem, eu hei de também conseguir...

Com esse pensamento foi ao banco. Aquele era um dia escaldante. O ar condicionado foi um choque térmico para ele.

Quando entrou na sala dos caixas sentiu que todos os olhares se fixaram nele.

Minha perturbação é evidente, pensou. Tentou disfarçar o pavor de ser medido dos pés a cabeça por todos.

Colocou as mãos no envelope, apertando com força à procura de coragem.

Cada cliente que saía do caixa lhe fazia suar mais. Desejou que a fila não terminasse nunca. Tinha de medo de não conseguir.

Para piorar, o caixa era um tipo carrancudo, ares de poucos amigos, calvo, que trabalhava metodicamente, sem sorrir para os clientes...

Pensou novamente em desistir quando olhando pelas frestas de sua armadura percebeu que era chegada a sua hora!

A vontade era de bater em retirada, como das outras vezes. Sentiu uma tontura...

É a sua vez, o caixa está chamando, empurrou o homem que estava atrás dele na fila.

Parou em frente ao caixa, paralisado. Esperou que levantasse os olhos. Uma espera que lhe pareceu interminável...

Até que o caixa ergueu seus olhos. Pois não?

Eu.. eu.. quero depositar cem reais! Depois de um lapso de tempo lembrou de entregar o envelope com o dinheiro.

Só isso?! Sim, obrigado, passar bem!

Ei, olhe o comprovante de depósito!

"Foi lá por 86"

Edu Cezimbra

Manhãs de chuva


I

Aos poucos vou assumindo meu lado crítico nestas manhãs de chuva...

Percebo nitidamente o controle social. 

Cada qual policiando, se policiando...

Força poderosa... Detém todos os impulsos "anti-sociais" (receita infalível dos 

donos do poder)!

Drogas, eu não, Deus me livre!

Machistas  são os outros.

Revolução, que é isso, companheiro?!

O que mais? Um monte de preconceitos, tabus, repressão, superstições que 

somados dão neste atoleiro que estamos metidos até o pescoço...

II

Aos poucos, mas bem aos poucos, vou descobrindo o que não queria...

E essas horas de solidão e chuva ajudam muito.

Assim, enquanto a chuva cai lá fora, também me molho por dentro. 

São lágrimas que não derramo, que rolam aos borbotões para dentro de mim.

Por que começo a perceber o vazio de tudo...

Uma imagem surge... Estou, aos poucos, me enchendo com lágrimas feito um 

bebedouro de vidro.

Percebo que não estou mais vazio...


"Foi lá por 86"

Edu Cezimbra


Alfabetização cultural para a formação de uma sociedade leitora

cordel



A leitura é uma das mais importantes ações individuais para acesso à informação de qualidade, mas pouco usada pelos brasileiros. Quantos livros são precisos para que se construa uma opinião pública consequente, à altura de uma sociedade da informação?


Afinal, os brasileiros não leem porque os livros são caros ou os livros são caros porque os brasileiros não leem? Lancei esta pergunta no facebook e logo acrescentei: ou nenhuma das alternativas é correta?
Diria que o problema da falta de leitura não é tão econômico assim, como muitos reclamam…
 
Sociedade leitora

Nunca é demais repetir que nos tempos modernos tudo se faz através da escrita e da interpretação deste código simbólico, sejam leis que interferem na vida de cada um, opiniões emitidas através dos chamados “formadores de opinião” dos grandes grupos de mídia, manuais de instrução de equipamentos eletrônicos, bulas de remédios, rótulos de alimentos processados (nunca lidos) enfim, a lista é longa.

O brasileiro comum tem pouco acesso aos livros que muito lhe ajudariam a decifrar estes códigos de dominação citados acima  a que é cotidianamente submetido e, de fato, não conhece muitos caminhos que o levem às livrarias, sebos e bibliotecas. Até porque temos pouquíssimas livrarias em comparação , por exemplo com nossos vizinhos uruguaios e argentinos. Bibliotecas também são pouco frequentadas mesmo quando abertas ao público.

Cultura e educação

O brasileiro possui cultura sim, mas uma cultura oral. Primeiro foi o rádio que definitivamente consolidou esta cultura oral e depois, no mesmo estilo, a TV.
Não podemos desconsiderar que o livro foi proibido  durante todo o período colonial brasileiro. Era crime portar um livro: “teje” preso por porte de livro…Portanto, não é de admirar que os livros circulem tão pouco no Brasil conhecendo esta história de opressão incorporada no povo brasileiro como nos lembra o educador Paulo Freire.

Escolas

A escola estimula a leitura ou não? Livros obrigatórios são lidos por obrigação, obviamente. No entanto, leitura é um hábito que dá muito prazer para quem tenha a satisfação de possuí-lo. A maioria das pessoas não possuem este hábito prazeroso apesar de terem lidos obrigatoriamente na escola.
Outra variável importante é o chamado “analfabetismo funcional”. A pessoa lê um parágrafo mas não consegue entendê-lo, ou pior, interpretá-lo.
 
Tradição oral

O compositor Tom Zé conta em uma entrevista que adquiriu sua visão de mundo (que é larga) ouvindo as histórias dos sertanejos que iam à loja de seu pai adquirir produtos manufaturados. E reforça que muito o impressionou a sabedoria desta gente analfabeta, mas de uma inteligência rara graças a sua rica tradição oral. Quem já escutou uma “embolada” sabe do que estou falando!
Cordel Irec__ Rep__rterLiteratura de cordel

Possivelmente este tipo de literatura popular muito apreciada no nordeste brasileiro não seja incluída nas pesquisas sobre leitura de livros pelos brasileiros, mas ela é por demais significativa para a formação cultural de toda uma região.
O cordel é feito artesanalmente e é vendido muito barato em praças e feiras do sertão. De que forma? Declamado pelo cordelista ( é feito em forma de versos) para os frequentadores da feira e vende como pastel feito na hora.
 
Teatro de mamulengo

O teatro de bonecos mamulengo, também uma tradição oral nordestina, é outra forma encantadora de se levar cultura e educação a todos.
Outro dia estava fazendo uma roda de poesia com pessoas em situação de rua e ouvi de um deles parte da história de um mamulengo que ele tinha assistido na Redenção,um parque muito frequentado em Porto Alegre. Ele me contou com detalhes  uma cena do teatro de bonecos, quer dizer, captou a mensagem, entendeu o “parágrafo”!
 
Contadores de histórias

A contação de histórias é outra maneira lúdica e muito atraente de divulgar a literatura para crianças e adultos, acreditem! Conheço contadoras de história que transformam temas normalmente áridos (segurança no trabalho, trânsito, saúde bucal, etc.) em divertidas histórias utilizando esquetes ou fantoches que são muito apreciadas pelos trabalhadores!
Com estes poucos exemplos da cultura popular (tem muito mais) que lhes dei acredito que os “meus” leitores (poucos, mas os há)  deduziram onde quero chegar e esta “chegança” é que temos uma riqueza significativa à nossa disposição para formarmos uma sociedade leitora à altura dos desafios desta era da informação.

A aposta certeira é nas culturas populares

Podemos sim, se superarmos alguns preconceitos culturais, estimular o gosto pela leitura através de toda uma tradição oral rica e atrativa, lúdica e participativa da nossa cultura popular, assim como já  fizeram na década de 60 os Centro Populares de Cultura, CPCs, destruídos pela ditadura militar brasileira, aí sim, outro entrave forte, pois persiste inercialmente sua política  de barrar a emancipação dos brasileiros.

Porto Alegre, 25 de novembro de 2015
 
Edu Cezimbra

sexta-feira, 25 de março de 2016

Página marcada

Desenho de Sandra Dias

Não pense que te esqueci

Apenas viramos a página

Mas ela e eu

Estamos

Indelevelmente

Marcados

Por ti



"Foi lá por 86"
Edu Cezimbra

A ideologia do fascismo

Cena do filme "O Veneno da Madrugada", de Ruy Guerra
"Na política, as pessoas acreditam no que lhes convém", disse o personagem principal do filme "O Veneno da Madrugada", de Ruy Guerra, baseado no livro homônimo de Gabriel Garcia Márquez, resumindo em frase lapidar as dificuldades políticas contemporâneas.

Quando muitas pessoas acreditam no que convém a uns  poucos chamamos ideologia.

O maior perigo para uma sociedade é quando quem não acredita no que convém a poucos começa a ser perseguido por muitos. A isto chamamos  fascismo.

Porto Alegre, 25 de março de 2016.
Edu Cezimbra

quinta-feira, 24 de março de 2016

Moralismo

O Enigma de Hitler, Salvador Dali


Ressuscite o moralista que jaz dentro de você ( aliás, este moralista está apenas anestesiado por doses de liberalismo).
Vamos, tente! Não é difícil ter medo...
Escolha: medo de ser traído por sua mulher, medo de assumir sua sexualidade.
Tem outro, muito convincente: medo de perder
o emprego.
Mais um, que estimula o preconceito: medo do desconhecido.
Precisa mais?! Definitivamente, medo do que vão pensar...
Isso, você está conseguindo...Você é todo moral agora!!!
Edu Cezimbra
"Foi lá por 86"
                                                                                                         

quarta-feira, 23 de março de 2016

Previsão poética


Dias ensolarados como este não são previstos pelos meteorologistas, e sim pelos poetas...Que tedioso deveria ser para os antigos acostumados com as metáforas e analogias dos poetas ouvir a "previsão do tempo" pelo moço ou moça do tempo...

Porto Alegre, 1 de setembro de 2011
Edu Cezimbra

GUADUA

Poema em homenagem ao meu segundo neto, Guadua, quando do seu nascimento em parto domiciliar.

terça-feira, 22 de março de 2016

Beija-flor






Beija a flor

como se beijasse

da brisa seu odor.



Silencioso,

beija a flor,

sem despertar

o seu pudor.



Delicado

beija a flor

como amante

apaixonado.



De um Cupido polinizador

seta emplumada e colorida,

assim é o beija-flor...




Porto Alegre, 13 de maio de 2015

Edu Cezimbra

Historieta


Um pequeno passarinho (com o perdão da redundância) aprendendo a dar suas primeiras desasadas tentativas de voo entrou na sala de casa, esvoaçou roçando a parede e o forro e foi pousar na mesa da cozinha, perto da bacia com frutas, para depois voar pela janela e pousar na cerca me espiando...Ou as frutas.


Porto Alegre, 19 de dezembro de 2013.
Edu Cezimbra

segunda-feira, 21 de março de 2016

Céu de Letras


Vô, desenha um céu.
Tá, vou desenhar umas nuvens...
Não, um céu de letras!
Ah, entendi...
O Sol, a Lua, as maiúsculas,
Estrelas, as minúsculas.
Meteoritos caem escritos
Na Via Láctea das páginas.
Constelações de palavras
Traçadas por cometas, escritores.
Céu de letras, livro aberto,
Paraíso dos leitores.

Porto Alegre, 21 de março de 2016.
Edu Cezimbra (inspirado por ideia inicial da Íris, minha netinha, a quem dedico esta singela poesia, bem como ao Guadua e ao terceiro netinho(a) que virá.) 

 

sexta-feira, 18 de março de 2016

Flor do urucum



A flor do urucum
guarda o sol,
guarda ruborizada
as cores quentes. 

Fugidia flor ensolarada,
pintam corpos para as festas
 tuas sementes
  cor  de sangue. 

Edu Cezimbra, verão de 2015


quinta-feira, 17 de março de 2016

Crime e Castigo


"Demais não há motivos para nos inquietarmos a esse respeito: quase sempre as massas não lhes reconhecem esse direito: cortam-lhes a cabeça ou enforcam-nos (mais ou menos) e, desse modo exercem a sua missão conservadora até o dia em que essas mesmas massas erigem estátuas a esses mesmos supliciados e os veneram (mais ou menos). O primeiro grupo é sempre senhor do presente, e o segundo é senhor do futuro. Um conserva o mundo, multiplica-lhe os habitantes; o outro move o mundo e o dirige.”

Raskolnikof, personagem principal de "Crime e Castigo" de Dostoievski, é um jovem estudante russo que diz que "o homem é pusilânime, conforma-se com tudo." 

Não busquemos coerência entre a citação e o parágrafo anterior. O que este escritor russo expressa categoricamente é a condição humana complexa e que antecipa, de certa forma, um conflito existencial que, aí sim, perpassa a alma de todos os homens: a dualidade. Esta nunca é relativizada, mas colocada em conflito: ou se é bom ou mau, pusilânime ou corajoso, massa ou vanguarda, quando, na realidade, o que ocorre é uma alternância de sentimentos, atitudes e ideologias ao sabor dos ventos.

Sempre é bom retomar a leituras dos clássicos da literatura pois nos suscitam questões atemporais...

Edu Cezimbra 

Foto: Francisco Cezimbra

Ode à capoeira

capoeira

Em meio à poeira
Sem perder a atenção
Ginga ágil capoeirista
Até planta bananeira
.
Logo aplica uma rasteira
Ao ritmo do berimbau
Com uma rápida pirueta
Evita a queda fatal
.
Cada pulo colossal
Todo passo é de dança
Tem uma esquiva magistral
Com mandinga não se cansa
.
Trazida lá de Angola
Desde tempo tão pungente
É arte marcial brasileira
Reconhecida mundialmente!

Edu Cezimbra, no outono de 2015

terça-feira, 15 de março de 2016

Dogma


O que fazer na cerração?
Fechar os olhos e seguir
Por que não andar na contramão
Se prá morrer basta estar vivo?
Será virtuoso o sermão
Se prá fazer basta dizer?
Não diga que estou errado
Falo de coisas proibidas
Pecados, padres, perdição
E as beatas rezadoras
Querendo mais e não querendo
Pedindo mais numa oração!


Edu Cezimbra
Foi lá por 85

segunda-feira, 7 de março de 2016

BARCELONA


Barcelona, cuida-te,
és a cidade de Gaudí.
És mosaico colorido,
cerâmica e rocha unidas
por mãos humanas
salpicadas de areia e sal
pelos ventos mediterrâneos.
Castelos de areia na praia
viraram torres, catedrais
aos olhos visionários de Gaudí.
Céu, terra e mar
aí está Gaudí,
antigo e moderno
juntando dragões, palmeiras e anjos
para fazer o milagre de uma coisa só:
o humano e o divino.
Barcelona, cuida-te!
Há em ti muito Gaudí...

Porto Alegre, 7 de março de 2016.
Edu Cezimbra

Diário de Barcelona III



No Paseo de Gracía, 92, fica a Casa Milà, mais conhecida pelo nome popular de “La Pedrera”, por ser toda construída com blocos de pedra calcária, que lhe dá um aspecto rochoso.
Chama atenção no edifício as sacadas de ferro imitando motivos vegetais e as chaminés cobertas por mosaicos, a marca registrada de Gaudí, espécie de símbolo da cidade reproduzida nos “recuerdos” das lojas.
 Após o "aperitivo" de La Pedrera fomos de metrô até as proximidades do Park Güell.
Tivemos de subir ladeiras íngremes nas cercanias do parque, felizmente auxiliados por algumas escadas rolantes, mesmo assim a subida nos deixou de língua de fora...
 Mas, a vista de Barcelona dos altos do Park Güell compensou todo o esforço!
Entramos por um acesso lateral e fomos subindo as suas trilhas sinuosas em meio a uma vegetação que combina espécies de deserto a muitas rochas com palmeiras,  árvores e arbustos floridos.


Aos poucos fomos nos encantando com a atmosfera acolhedora criada por Gaudí, que soube conjugar o terreno áspero da colina com passeios, viadutos de pedra e construções integradas com a natureza.
Concertos musicais aconteciam por debaixo das arcadas dos monumentais viadutos de pedra enquanto muita gente circulava pelos variados terraços do parque.
 O Park Güell te convida a flanar, a sentar e degustar as coisas boas e simples da vida, como tomar um café em uma das mesas da pequena lancheria com vista para as construções concebidas pelo gênio de Gaudí e sua amada Barcelona, ao fundo!

Barcelona. 18 de fevereiro de 2016.
Edu Cezimbra

sexta-feira, 4 de março de 2016

Diário de Barcelona II


 Capítulo à parte: A Basílica da Sagrada Família
Na cidade de Gaudí, há que “madrugar” para se ver um pouco de suas obras magistrais em apenas dois dias!
Primeira parada obrigatória: a Basílica da Sagrada Família. E aí está uma “obrigação” que se faz com muito gosto...
A Sagrada Família não é uma catedral magnífica apenas, e sim uma escultura gigantesca, que Gaudí concebeu em sua genialidade moldada com uma profunda devoção associada a um vanguardismo alucinante. Impressionante!
Para ter uma ideia da magnitude do projeto, iniciada no início do século XX, ainda se encontra inacabada por ter sido bombardeada na Guerra Civil Espanhola mas também face à sua intricada concepção arquitetônica.
Uma das fachadas, a mais antiga, construída sob a supervisão direta do arquiteto adquiriu aquela tonalidade escurecida típica de prédios mais antigos.
Toda esculpida com figuras sacras e com motivos da natureza que mostram o Nascimento de Jesus guarda um simbolismo complexo, motivo de estudos acadêmicos, como constatei em sua livraria.
 Esta outra fachada representa a Paixão de Cristo e as esculturas são de Josep Maria Subirachs, que a mim lembraram pinturas de Cândido Portinari, pelos traços rudes e marcantes. Formam um conjunto em que se tem a impressão de uma forte comoção passada por Gaudí, pois segundo consta já estava muito doente quando as encomendou.
Não deixe de investir no ingresso pago ao interior da Sagrada Família, não só para contribuir com a conclusão da catedral mas especialmente pela experiencia culminante que é estar nele.

Gaudí conseguiu criar uma floresta dentro da catedral! Com suas muitas e gigantes colunas em forma de árvore e com o jogo de luz obtido pelas cúpulas e vitrais coloridos vivencia-se a caminhada em uma mata em dia de sol...
Permanecemos um bom tempo circulando com os olhos para cima e também sentamos para sentir uma atmosfera de muita paz e beleza que o interior da igreja proporciona.
Gaudí estava tão dedicado a esta obra monumental que se mudou para a basílica, até morrer atropelado quando ia à missa matinal. Felizmente deixou seguidores...
Tirei o chapéu para Gaudí!
Próxima parada: Paseo de Gracia, 92. A Casa Milà mais conhecida pelo nome popular de “La Pedrera”, por ser toda construída com blocos de pedra calcária, que lhe dá um aspecto rochoso. 

Barcelona, 18 de fevereiro de 2016
Edu Cezimbra 

VENEZA



Cidade úmida
por estreitos canais
deixa-te penetrar
por gôndolas
negras e longas

Encaras de frente
sedutora
o oriente

Apaixonada
deixa-te fecundar
grávida de mundos
exóticos
a todos incorporas
maternalmente
para propiciar 
renascimento

Nao és Babilônia
nem Jerusalém
És eternamente
Veneza
venezianas abertas
olhos postos no além


Edu Cezimbra
Porto Alegre, 4 de março de 2016
 


quarta-feira, 2 de março de 2016

Diário de Barcelona I



Para um brasileiro, Barcelona é uma espécie de evocação da terra natal.
Já no voo vindo da chuvosa e fria Milão, no norte da Itália, deparei-me com o litoral do Mar Mediterrâneo, águas esverdeadas e com pequenas praias de areia branca entre os rochedos com matas! 
Ao sairmos do aeroporto, palmeiras balançavam suas folhas ao sabor de uma suave brisa vinda do mar.
Descemos do ônibus que nos trouxe do aeroporto na Plaça d'Espanya (em catalão) e duas torres enormes demarcavam o início de uma larga avenida que desembocava em um parque (Parc Montejuïc) com o que me pareceu uma catedral no alto, que depois vim a saber é o Palau Nacional, que abriga o Museu Nacional D'Art de Catalunya e onde das suas imensas escadarias, se pode ver, à noite, o espetáculo de cores das aǵuas dançantes da Fonte Mágica.
O táxi que pegamos era dirigido por uma simpática senhora sexagenária que consultou um guia das “calles” (carrer, em catalão) impresso, enquanto dirigia... E achou!
Do Brasil, como me pareceu de todo europeu com quem conversei, conhece o Rio de Janeiro e a única dica de Barcelona que nos deu foi a Fonte Mágica, além de recomendar peremptoriamente que evitássemos os bares de "La Rambla" por serem muito caros...
Após deixarmos as malas no apartamento em que ficamos durante 3 noites, fomos caminhar em "La Rambla" através de ruas estreitas e ocupadas por muitas pessoas com seus trajes típicos muçulmanos dando um ar oriental a esta parte de Barcelona.
 Diferente das ramblas de Montevidéu, as ramblas de Barcelona não acompanham o mar, pode-se dizer que levam até o mar...ou ligam o mar com a Plaza Cataluña (Plaça Catalunya, em catalão).
Em seu longo percurso temos uma amostragem da vida noturna de Barcelona, que na hora em que chegamos começava a borbulhar com seus bares, cafeterias e sorveterias com as mesas dispostas no largo passeio de La Rambla.
 Encontramos logo o famoso Mercat La Boqueria que naquele horário já estava com muitas bancas “cerradas” mas ainda permitia se vislumbrar a diversidade de alimentos oferecidos pelos seus extrovertidos atendentes.
 Finalmente chegamos à Plaça Catalunya que premia seus visitantes com duas imensas fontes iluminadas cercadas por jardins e estátuas de mármores, além de largas avenidas com seus prédios comerciais predominando na volta.
Diante do adiantado da hora resolvemos voltar ao apartamento (mais uma caminhada) e descansarmos para no outro dia, logo cedo, irmos conhecer a Barcelona de Gaudí!
Buenas noches!

Barcelona, 17/02/2016
Edu Cezimbra