segunda-feira, 28 de março de 2016

A prova


 A cada vez que tentava, mais se apavorava e desistia, mas não queria desistir de vez.

Assim, sofria muito... se lamentava, se culpava, não se sentia bem. 

Na verdade, não tinha persistência. Só tinha persistência para um constante sentimento de culpa, esse sim, persistente, incansável, invencível.

Então, um dia, começou a repetir para si mesmo, inúmeras, repetidas vezes que não podia desistir...

Claro, que lá no fundo, não acreditando que iria conseguir.

Mas por que não?! se outros conseguem, eu hei de também conseguir...

Com esse pensamento foi ao banco. Aquele era um dia escaldante. O ar condicionado foi um choque térmico para ele.

Quando entrou na sala dos caixas sentiu que todos os olhares se fixaram nele.

Minha perturbação é evidente, pensou. Tentou disfarçar o pavor de ser medido dos pés a cabeça por todos.

Colocou as mãos no envelope, apertando com força à procura de coragem.

Cada cliente que saía do caixa lhe fazia suar mais. Desejou que a fila não terminasse nunca. Tinha de medo de não conseguir.

Para piorar, o caixa era um tipo carrancudo, ares de poucos amigos, calvo, que trabalhava metodicamente, sem sorrir para os clientes...

Pensou novamente em desistir quando olhando pelas frestas de sua armadura percebeu que era chegada a sua hora!

A vontade era de bater em retirada, como das outras vezes. Sentiu uma tontura...

É a sua vez, o caixa está chamando, empurrou o homem que estava atrás dele na fila.

Parou em frente ao caixa, paralisado. Esperou que levantasse os olhos. Uma espera que lhe pareceu interminável...

Até que o caixa ergueu seus olhos. Pois não?

Eu.. eu.. quero depositar cem reais! Depois de um lapso de tempo lembrou de entregar o envelope com o dinheiro.

Só isso?! Sim, obrigado, passar bem!

Ei, olhe o comprovante de depósito!

"Foi lá por 86"

Edu Cezimbra