segunda-feira, 28 de março de 2016

Alfabetização cultural para a formação de uma sociedade leitora

cordel



A leitura é uma das mais importantes ações individuais para acesso à informação de qualidade, mas pouco usada pelos brasileiros. Quantos livros são precisos para que se construa uma opinião pública consequente, à altura de uma sociedade da informação?


Afinal, os brasileiros não leem porque os livros são caros ou os livros são caros porque os brasileiros não leem? Lancei esta pergunta no facebook e logo acrescentei: ou nenhuma das alternativas é correta?
Diria que o problema da falta de leitura não é tão econômico assim, como muitos reclamam…
 
Sociedade leitora

Nunca é demais repetir que nos tempos modernos tudo se faz através da escrita e da interpretação deste código simbólico, sejam leis que interferem na vida de cada um, opiniões emitidas através dos chamados “formadores de opinião” dos grandes grupos de mídia, manuais de instrução de equipamentos eletrônicos, bulas de remédios, rótulos de alimentos processados (nunca lidos) enfim, a lista é longa.

O brasileiro comum tem pouco acesso aos livros que muito lhe ajudariam a decifrar estes códigos de dominação citados acima  a que é cotidianamente submetido e, de fato, não conhece muitos caminhos que o levem às livrarias, sebos e bibliotecas. Até porque temos pouquíssimas livrarias em comparação , por exemplo com nossos vizinhos uruguaios e argentinos. Bibliotecas também são pouco frequentadas mesmo quando abertas ao público.

Cultura e educação

O brasileiro possui cultura sim, mas uma cultura oral. Primeiro foi o rádio que definitivamente consolidou esta cultura oral e depois, no mesmo estilo, a TV.
Não podemos desconsiderar que o livro foi proibido  durante todo o período colonial brasileiro. Era crime portar um livro: “teje” preso por porte de livro…Portanto, não é de admirar que os livros circulem tão pouco no Brasil conhecendo esta história de opressão incorporada no povo brasileiro como nos lembra o educador Paulo Freire.

Escolas

A escola estimula a leitura ou não? Livros obrigatórios são lidos por obrigação, obviamente. No entanto, leitura é um hábito que dá muito prazer para quem tenha a satisfação de possuí-lo. A maioria das pessoas não possuem este hábito prazeroso apesar de terem lidos obrigatoriamente na escola.
Outra variável importante é o chamado “analfabetismo funcional”. A pessoa lê um parágrafo mas não consegue entendê-lo, ou pior, interpretá-lo.
 
Tradição oral

O compositor Tom Zé conta em uma entrevista que adquiriu sua visão de mundo (que é larga) ouvindo as histórias dos sertanejos que iam à loja de seu pai adquirir produtos manufaturados. E reforça que muito o impressionou a sabedoria desta gente analfabeta, mas de uma inteligência rara graças a sua rica tradição oral. Quem já escutou uma “embolada” sabe do que estou falando!
Cordel Irec__ Rep__rterLiteratura de cordel

Possivelmente este tipo de literatura popular muito apreciada no nordeste brasileiro não seja incluída nas pesquisas sobre leitura de livros pelos brasileiros, mas ela é por demais significativa para a formação cultural de toda uma região.
O cordel é feito artesanalmente e é vendido muito barato em praças e feiras do sertão. De que forma? Declamado pelo cordelista ( é feito em forma de versos) para os frequentadores da feira e vende como pastel feito na hora.
 
Teatro de mamulengo

O teatro de bonecos mamulengo, também uma tradição oral nordestina, é outra forma encantadora de se levar cultura e educação a todos.
Outro dia estava fazendo uma roda de poesia com pessoas em situação de rua e ouvi de um deles parte da história de um mamulengo que ele tinha assistido na Redenção,um parque muito frequentado em Porto Alegre. Ele me contou com detalhes  uma cena do teatro de bonecos, quer dizer, captou a mensagem, entendeu o “parágrafo”!
 
Contadores de histórias

A contação de histórias é outra maneira lúdica e muito atraente de divulgar a literatura para crianças e adultos, acreditem! Conheço contadoras de história que transformam temas normalmente áridos (segurança no trabalho, trânsito, saúde bucal, etc.) em divertidas histórias utilizando esquetes ou fantoches que são muito apreciadas pelos trabalhadores!
Com estes poucos exemplos da cultura popular (tem muito mais) que lhes dei acredito que os “meus” leitores (poucos, mas os há)  deduziram onde quero chegar e esta “chegança” é que temos uma riqueza significativa à nossa disposição para formarmos uma sociedade leitora à altura dos desafios desta era da informação.

A aposta certeira é nas culturas populares

Podemos sim, se superarmos alguns preconceitos culturais, estimular o gosto pela leitura através de toda uma tradição oral rica e atrativa, lúdica e participativa da nossa cultura popular, assim como já  fizeram na década de 60 os Centro Populares de Cultura, CPCs, destruídos pela ditadura militar brasileira, aí sim, outro entrave forte, pois persiste inercialmente sua política  de barrar a emancipação dos brasileiros.

Porto Alegre, 25 de novembro de 2015
 
Edu Cezimbra