domingo, 28 de agosto de 2016

Diário de Viagem: Toledo, Espanha


Peço licença poética a Cervantes para que os seus míticos, lendários personagens, 'Don Quijote de La Mancha' e seu fiel escudeiro 'Sancho Panza', sejam nossos guias nessa visita inesquecível.

Presente em cada loja de lembranças, nas vitrines, nas calçadas, entende-se logo, ao se chegar na rodoviária de Toledo, por que Dom Quixote vivenciaria suas fantasias e delírios com muita intensidade nessa cidade.

Portas, muralhas, castelos, pontes romanas, igrejas, catedral, palácios apertados em ruas estreitas calçadas com pedras tornam muito presente o 
cenário de romances de cavalaria tão ao gosto do 'cavaleiro de triste figura' de Cervantes.

O rio que banha Toledo é o 'Tajo', nome espanhol do mesmo Rio Tejo de Lisboa. Nem Fernando Pessoa pode se dar o luxo de ter o Tejo como o rio que banha a sua aldeia...

Logo ao chegar a uma das suas muitas portas deparamos com uma manifestação popular de direito à água do 'Tajo' para abastecimento da população de Toledo. Mesmo em uma cidade murada as questões ambientais invadem suas muralhas e inquietam seus habitantes...


Toledo foi erigida em cima de uma colina que é quase uma ilha, circundada que é pelas águas mansas de seu rio. Escolha estratégica para sua defesa como comprovam os altos muros de pedra que circundam toda a cidade ligada por pontes romanas com portas que são em realidade torres fortificadas.

Dom Quixote ao passar por Toledo não teria que alucinar demais...

Outro aspecto notável de Toledo é sua arquitetura medieval com influência mourisca e judaica.

Palácios magníficos e mosteiros com claustros amplos ricamente ornamentados com colunas, abóbadas e janelas imensas abrindo para pátios internos com belos jardins e fontes transmitem uma sensação de contemplação e paz.

A Catedral de Toledo é uma das mais ricas da Europa com imensos vitrais, pinturas e altares revestidos de ouro. Situada entre ruas estreitas calçadas com pedras que formam um intricado labirinto cujo 'fio de Ariadne' é a torre alta da catedral espremida entre o casario e sobrados com sacadas de ferro ou madeira dando uma configuração muito peculiar ao sítio histórico.

Famosa há séculos sua cutelaria e ourivesaria com filamentos de ouro, herança árabe, atrai muitos visitantes para suas oficinas abertas ao público que pode observar de perto o trabalho de seus artesãos e adquirir suas obras.

A foto que ilustra este diário de viagem com a estatueta de 'D. Quijote e Sancho' tem como pano de fundo uma pintura: 'La Vista y Plano de Toledo'  do famoso pintor renascentista 'El Greco' que buscou refúgio em Toledo após ter suas obras rejeitadas em Madri. Existe um museu dedicado a ele com réplicas de móveis e aposentos da casa onde morou 'El Greco' assim como a exposição permanente de muitas de suas obras-primas, entre elas a réplica de 'Lágrimas de San Pedro' cujo original está na Catedral de Toledo.

Culminando este cenário de rara beleza encontra-se a fortaleza de Alcázar com seus museus de armas, uma espécie de coroa desta cidade que poderia ser intitulada por Dom Quixote de "Reina de La Mancha". 


Toledo, 31 de janeiro de 2016.

Fotos: Francisco Cezimbra

Edu Cezimbra







sábado, 27 de agosto de 2016

Banho da Lua



A Lua e as estrelas 
estavam se admirando 
no lago, ontem à noite...

"Porque altas estão"
saltos ornamentais
deram na serena 
água do lago, 
as estrelas e a Lua,
a se banhar...

Porto Alegre, 28 de junho de 2012.

Edu Cezimbra

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Poema borrado


A poeta Adélia Prado chorou
ao ler um poema
do Carlos Drummond de Andrade.

Chorou em uníssono
cada palavra lágrima
na folha do livro.

Cada palavra dissolvida
na gota salgada de saudade
rolava na página borrada.

E deixava no poema
e no poeta 
manchas marcadas de amor 
à poesia.


Porto Alegre, 26 de agosto de 2016.

Edu Cezimbra

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Minha terra tem 'muitas' palmeiras

O Rio Preguiça é um longo oásis de rara beleza com águas cristalinas margeado por buritis, coqueiros e jussaras. Gonçalves Dias foi modesto em seus versos saudosos pois poderia ter dito sem exagero: "minha terra tem 'muitas' palmeiras"! — em Lençóis Maranhenses _ Barreirinhas-MA.

Edu Cezimbra

Hermetismo


"Foi lá por 85"

Edu Cezimbra

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Associações



                                                                         XV


Claro          clara            clarabóia

    Branco        branca         brancaleone

 Alvo            alva             alvarenga

  Negro          negra           negritude

"Foi lá por 85"

Arte: 24 de agosto de 2016

Edu Cezimbra

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Beijos



Da tua garganta arquejante

Flui musical prazer

Me embriagando de amor

Sorvo em goles largos

A saliva lasciva de teus beijos

Sou vítima e cúmplice

Matando avidamente o meu desejo

"Foi lá por 85"

Pintura de Toulouse-Lautrec

Edu Cezimbra

Hamlet e o golpe palaciano no Brasil


"Rei morto, rei posto" ou "O rei morreu, viva o rei", duas máximas auto-explicativas. Parece óbvio e natural que assim seja. 

Até que alguém grite no funeral: "rei morto, presidente eleito" causando um estupor na nobreza e no clero.

No Brasil às vésperas de ter uma presidenta deposta, qual seria o grito após golpe que deixaria estupefatos a nobreza agrária e o baixo clero e estragaria a festa? "Presidente deposto, Congresso dissolvido", talvez; ou "presidenta deposta, novas eleições" proporiam os espíritos mais democráticos. 

Mas essas medidas ficam mais parecidas com as duas máximas iniciais, não lhe parece? Ou seja, qualquer medida tomada nesse cenário atual da política brasileira apenas reforça a continuação de um modelo democrático de baixa intensidade e pouca representatividade. 

Como escapar deste beco sem saída? O diretor teatral Antunes Filho disse em entrevista à Revista Cult que quando a política brasileira se torna uma farsa é preciso um Hamlet para denunciar essa farsa: " Presidenta deposta, chama o Maduro (ou o Erdogan)".

Porto Alegre, 23 de agosto de 2016.

Edu Cezimbra

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Rock


"Foi lá por 85"

Edu Cezimbra

Parábolas olímpicas




- Mestre, o que é a vida?
 

- O Bolt correndo os 100 e os 200 metros rasos, pequeno guepardo.



- Mestre, o que é a vida?
 

- Tem assistido às corridas com obstáculos, pequena rã?



- Mestre, o que é a vida?
 

- Já viu o salto à distãncia, pequeno canguru?



- Mestre, o que é a vida?
 

- A vida é um salto com vara, pequeno gafanhoto.

                                    

- Kazaquistão, Kirguistão, Uzbequistão, Azerbaijão, quanto atleta olímpico campeão.

- Tucanistão, campeão da corrupção...(Mestre Sócrates Magno)

Porto Alegre, 17 de agosto de 2016.

Foto: ESPN

Edu Cezimbra 

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um recordista olímpico em Tacuarembó



Bar 'El Gamo', leva seu nome em homenagem a Juan Jacinto López Testa, nascido, crescido e vivido em Tacuarembó, foi uma das maiores glórias do atletismo oriental. Apelidado “El Gamo” por suas passadas largas, ele reinou em nível nacional e foi três vezes campeão sul-americano dos cem metros rasos. Disputou as Olimpíadas de Londres em 1948. Um ano antes, havia se sagrado campeão uruguayo, como de hábito. O tempo em que isso foi feito tirou da conquista o adjetivo de corriqueira. López Testa correu os cem metros rasos na altura do então recorde mundial. Os mesmos 10,2 segundos que o estadunidense Jesse Owens havia estabelecido em 1936. A marca, no entanto, nunca chegou a ser reconhecida oficialmente fora das fronteiras da Banda Oriental."

Tacuarembó também se considera a 'cidade mais futebolista do interior do Uruguai' e seu time já disputou a 1ª divisão de futebol profissional. (as fotos da parede do bar são do time profissional da cidade).


Ler mais: http://impedimento.org/tanta-vida-en-cuatro-versos-la-copa-en-tacuarembo-iii/

                                                        Tacuarembó,Uruguay,  03 de agosto de 2015. 
                                                                                                           Edu Cezimbra

domingo, 14 de agosto de 2016

Pai


Pai nosso que está 

Na Terra

Nos deixa cair

No Mundo

Nos livra das mães 

Superprotetoras

Agora e na hora

Do nosso orgasmo

Axé!

Porto Alegre, Dia dos Pais 

Edu Cezimbra

sábado, 13 de agosto de 2016

Trem



O ruído frio das rodas nos trilhos começam logo após o apito que avisa: o trem já vai partir. 

O tilintar do metal pela janela ainda ecoará nos meus ouvidos. 

Que triste o progresso que levou nossos trilhos do Brasil. 

Se há algo que sentirei falta são essas veias de metal que unem a Europa, que diminuem distancias, que unem pessoas. 

Gosto de me imaginar, quem sabe um dia, saindo do Rio Grande e descendo lá no Tocantins... que lindo é a partida e a chegada de um trem... 

JK não entendia nada de poesia.

 

Zaragoza, Espanha, 13 de agosto de 2013.

Flora Cezimbra

terça-feira, 9 de agosto de 2016

O Leitor e o Escritor



Miguel Sanches Neto em A Segunda Pátria faz esta generosa concessão ao leitor apaixonado por um livro:

"Só quem se dedicou apaixonadamente a um livro sabe que ele lhe pertencerá para sempre, mesmo que não possa recordá-lo"

 E, assim, define esta figura anônima e esperada:

  "Um leitor é alguém que carrega clandestinamente as palavras que leu". 

Já o escritor é um receptador de palavras. 

Vai polindo as palavras, dando nelas um lustro com frases lapidares para que adquiram brilho.

O livro é um cofre que o escritor almeja aberto pelo leitor. 

Se bijuteria, falso diamante, pedra preciosa, ouro ou prata, quem decide é o sentimento do leitor por mais que se lapide a palavra.

Por isso, ao leitor, a última palavra.


Porto Alegre, 09 de agosto de 2016.

Edu Cezimbra

Não podemos escrever isso


"Fingindo de morto pra ganhar sapato novo."

- Desmond, não podemos escrever isso...


- Tá bom, escreva assim, então:



"Se tu és neutro em situação de injustiça, tu escolheste o lado do opressor."

Desmond Tutu 

Porto Alegre, 29 de julho de 2016. 

Edu Cezimbra

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Terapia Corporal



XII

O diafragma distentido

Mostra a força

Da respiração sonora

Relata vida


XIII

Redescubra seu prazer

Acelere sua pulsação

Tensione seus músculos

Inspire profundo

Goze


"Foi lá por 85"

Foto da  capa de Rino de "O corpo em terapia" de A. Lowen, da Ed. Summus  

Edu Cezimbra

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Jornada del Muerto






Inauguraste o apocalipse

Na pacata Hiroshima

Jornada del Muerto

Deserto belicoso



Trágica premonição  

Captada no Japão 

Eco radioativo 

Sinal letal
"Foi lá por 85"

  Edu Cezimbra

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Gilka Machado e o "Ser Mulher"



Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!


GILKA MACHADO (1893-1980)
Vinda de família de artistas, com mãe atriz, parentes poetas e músicos, Gilka Machado foi uma grande poeta, que, nesses últimos anos, infelizmente caiu no ostracismo. Publicou em 1915, aos 22 anos, seu primeiro livro, Cristais Partidos. Durante a década de 1920, continua a escrever, lançando Estados d’Alma (1917), Mulher Nua (1922), Meu Glorioso Pecado (1928), e Amores que mentiram, que passaram (1928). Foi uma importante precursora da literatura erótica escrita por mulheres. Em 1979, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.


Foto: Edu Cezimbra