quarta-feira, 26 de março de 2025

Memórias do Subsolo

 


Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável. Creio
que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao
certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a
medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos
o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.)

Dostoiéviski desce aos porões da alma humana e retorna despido de hipocrisia, tão útil na vida em sociedade.

Toma o cuidado de escrever uma nota de esclarecimento inicial frisando que a obra não é baseada em ninguém (muito menos nele), portanto baseado em todos...

Os títulos das muitas traduções para o português já demonstram isso: "Diário do Subsolo", "Memórias do Subsolo", "Notas do Subsolo", "Cadernos do Subterrâneo", "Notas do Subterrâneo", "A Voz do Subterrâneo".

A prodigalidade de títulos já demonstra a atração desse livro de Dostoiéviski, que, diga-se, passou despercebido na época em que foi publicado no formato folhetim.

Mas chega de notas e cadernos e vamos aos fatos.

Para mim, esse primeiro parágrafo de "Memórias do Subsolo" é um dos mais impressionante que já li: "Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável."

Uma espécie de "Confissão do Inconfessável", podemos intitular...

Alguém que se apresente dessa forma é alguém que nada tem a perder.

É o "Lobo da Estepe", de Hermann Hesse, solto na cidade, sem ética, sádico e psicopata.Supõe que sofre do fígado mas nunca se tratou.

Como todo supersticioso é um negacionista enrustido: embora acredite nos médicos não os consulta.

 O que faz essa personagem tão atraente para os leitores do Fiódor, creio, é a sua assumida personalidade perversa que nos proporciona o "espetáculo da crueldade", no dizer de Nietzsche.

Erupciona o recalque do que foi enterrado no subsolo do subconsciente.

Como disse um pensador: dê poder (por menor que seja) a um homem e conhecerá quem ele é... 


Porto Alegre, 26 de março de 2025.

Imagem: capas do livro, Medium

Edu Cezimbra

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