quinta-feira, 12 de julho de 2018

O campinho


Numa cidadezinha esquecida do mundo
quem não teve um campinho
para um jogo de bola
- não era pelada!
A bola era de borracha,
muitas furavam nos espinhos
ou no arame farpado.
O campinho meio esburacado
tinha mais guanxuma que gramado,
era todo desnivelado,
ganhava quem descia
perdia quem subia
era todo ao contrário,
não tinha lateral,
de um lado era um muro
do outro uma valeta,
num lado a bola não saia
do outro a bola se perdia...
O jogo era até 10, virava em 5,
às vezes não acabava
quando uma vidraça se quebrava
- quem quebrava pagava!
Em uma cidadezinha esquecida
a bola é redonda feito mundo...

Porto Alegre,12 de julho de 2018.
Imagem: Google
Edu Cezimbra

terça-feira, 10 de julho de 2018

O Diabo e a Morte


O Diabo foi dar seu passeio noturno habitual pela encruzilhada e qual não foi sua surpresa ao encontrar a Morte, cabisbaixa, sentada em uma pedra.

- Boa noite, Dona Morte, quanta animação esta noite! - zombou, soltando sua característica gargalhada diabólica.

Erguendo lentamente a sua caveira com um ranger tétrico de suas vértebras cervicais, a Morte trovejou: - vá para o inferno, que diabo! - irritou-se a velha conhecida do Chifrudo.

O Diabo, sem perder a graça, cutucou a Morte com seu tridente em chamas: - vamos sacudir o esqueleto, Dona Morte, organizei uns shows de bandas metaleiras no inferno para infernizar ainda mais os condenados!

- Diabo, vai pros quintos do inferno, estou podre de cansada, não aguento mais tanto serviço, a humanidade insiste em morrer feito moscas, a seguir assim o inferno vai ter uma superpopulação maior que a Terra…

- Pior que é, Dona Morte, aqui pra nós, a seguir assim, o inferno estará cheio de gente com boas intenções…

- Por que não vamos falar com o “Velho” e reclamar dele, afinal o Céu, exceto por alguns anjos, está praticamente desocupado por falta de interessados.

- O “Velho” é teimoso, insiste no tal “livre- arbítrio”... - resmunga o Tinhoso.

- “Livre-arbítrio”...mimimi...em que mundo Ele vive, meu Deus! Parece que não saiu do Renascimento!

O Diabo que não perdia a chance de criticar Deus, emendou ferino: - sim, Ele não saiu do teto da Capela Sistina – e soltou fumaça pelas ventas, sem esconder seu rancor.

- Viu no que deu tu passar o petróleo das profundezas da Terra para a humanidade?! Agora é essa mortandade que quase não dou conta: matam-se  pelo petróleo e o seu idolatrado “ouro negro” mata mais ainda…


Ao ouvir essa triste verdade, o Diabo senta em outra pedra saboreando sua vitória sobre o livre-arbítrio humano, mas logo fica cabisbaixo; mordendo o rabo, solta fumaça por todos os seus orifícios.

Percebe que também perdera seu domínio sobre a humanidade...

Porto Alegre, 10 de julho de 2018.
Imagem: Gustave Doré
Edu Cezimbra

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Parto da Poesia





Pela letra P


Parto para a poesia


Partida poética

Não é jogada

Mas jornada

Jamais conclusa

Inacabado parto

Para figuras de linguagem

Nunca dantes paridas...


Porto Alegre, 9 de julho de 2018.
Imagem: Pinterest
Edu Cezimbra

domingo, 8 de julho de 2018

Guerrilhas


Guerrilha é uma guerra com poucos meios. Contra a guerra global a guerrilha local.

Quando uma ditadura dominava um país surgia logo depois uma guerrilha, não é verdade?

Um guerrilheiro é um guerreiro sem armadura, antigamente apelidado de “bárbaro”.

Na Segunda Guerra era um soldado sem uniforme, “a resistência”, os “partisans”.

A “Coluna Prestes” percorreu todo o Brasil sem conhecer derrotas até se refugiar na Bolívia.

Na época eram designados como rebeldes, insubordinados…

Na ditadura militar brasileira a resistência pela luta armada foi rotulada como terrorista.

A “alcunha” pegou. Hoje todos os que se contrapõe aos poderosos são designados por terroristas pelos estados e grandes meios de comunicação.

Sem entrar no mérito, mas aproveitando o mote da “guerrilha”, pergunto se o que fizemos nos blogues e sites alternativos é o que alguns chamam de uma “guerrilha midiática”.

Guerrilha parece que “saiu de moda” depois de Cuba. Provavelmente porque não deu muito certo em outros países (Cuba e Vietnã são casos isolados mesmo)…

Além disso ninguém gosta de ser rotulado de "terrorista midiático".

Aí, o que resta é a “guerrilha das hashtags” nas redes sociais, ou melhor, #guerrilha. - De volta à “guerra de trincheiras”...

Porto Alegre, 8 de julho de 2018.
Imagem: Facebook
Edu Cezimbra


sábado, 7 de julho de 2018

Gol contra


O Brasil perdeu…
Para si mesmo.
Fez gol contra,
Abriu suas portas
Para a ganância estrangeira.
Não soube valorizar
Sua brava gente brasileira,
Ergueu castelos no ar,
Rasgou sua bandeira,
Deixou-se enganar pelo canto da sereia.


Porto Alegre, 7 de julho de 2018.

Imagem: Google

Edu Cezimbra

sexta-feira, 6 de julho de 2018

O Castelo e a Choupana


O Castelo olha de cima a Choupana.

- Não te enxergas, plebeia, vir morar ao meu lado?!

A Choupana se encolhe ainda mais e responde humilde:

- Perdão, meu nobre senhor, mas meus pobres moradores são servos do “seu” barão.

- E porque não vão morar no “ Minha Choupana, Minha Vida” do outro lado do fosso?! - replica o indignado Castelo.

- Meus moradores estão muito felizes em estar tão próximos de “sua magnificência”, tenta agradar a pequena Choupana.

- Felizes, como assim? O que é “felizes”, desconheço isso… confessa o altaneiro Castelo.

- É que eles passam o dia contentes fazendo suas tarefas porque não precisam pegar a diligência lotada da aldeia até “sua excelência”…

- Felizes, contentes, explique-se mulher, não enrole, o que significa tudo isso, algum feitiço?!

- Perdão, “sua alteza”, mas com todo o respeito, se o nobre senhor não sabe o que é ser feliz e contente, de que lhe adianta ser tão grande e imponente?

Nesse momento um raio fulminante derrubou a torre mais alta do Castelo junto com seu orgulhoso barão e o Castelo entrou em profunda depressão.


Moral da fábula: “não construa castelos no ar antes de ter os pés na terra”.

Porto Alegre, 6 de julho de 2018.
Imagem: Google
Edu Cezimbra

quinta-feira, 5 de julho de 2018

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Não existe pecado ao sul do Equador


"Antes da Redução, a aldeia era composta de gente muito ignorante, que nem sequer tinha uma lista pequena para o Bem e o Mal e, na realidade, nem mesmo dispunha de boas palavras para designar essas duas coisas tão importantes.
Depois da Redução, viu-se que alguns eram maus e outros eram bons, apenas antes não se sabia. Mulher má não quer ir à doutrina, quer andar nua, não quer que o padre pegue na cabeça do filho e lhe besunte a testa de banha esverdeada, dizendo palavras mágicas que podem para sempre endoidecer a criança. Feio, feio, mulher má.”

O excerto acima é do livro “Viva o Povo Brasileiro”, do escritor João Ubaldo Ribeiro.

Chico Buarque e Ruy Guerra são autores da música “Não existe pecado ao sul do Equador” que fazia parte da peça sobre Calabar, proibida pela censura da ditadura militar brasileira.

Não existe pecado do lado de
baixo do Equador
vamos fazer um pecado, rasgado
suado a todo o vapor
me deixa ser seu escracho
capacho, teu cacho
um riacho de amor
quando é lição de esculacho
olha aí, sai de baixo
que eu sou professor.

Tanto a peça quanto o livro foram escritas nos mesmos “anos de chumbo” que amordaçaram a cultura brasileira.
E ambas tem muito a ver com o povo brasileiro.

O livro conta de forma metafórica a sua história repleta de epsódios tragicômicos que refletem a alma brasileira “para o bem e para o mal”.

A peça “Calabar: o elogio da traição” denuncia o autoritarismo do momento através de outra leitura da vida do suposto traidor Calabar, retratado como uma pessoa interessada no “bem” do povo brasileiro em formação.

A proibição é justificada pelo caráter “antinacionalista” da peça já que Calabar teria ajudado os invasores (somente eles) holandeses.

O que me ocorre com a leitura do livro e ouvindo a canção é que o “o bem e o mal” tão presentes na moral oficial e popular é mais discursiva do que prática.

Assim, pessoas interessadas no bem do povo podem ser acusadas de fazer o mal ao Brasil (leia-se: aos poderosos de qualquer época).

“Não existe pecado do lado de baixo do Equador” canta a holandesa de Calabar que, muito provavelmente, escapou de ser comida pelo caboclo Capiroba, personagem canibal do romance de João Ubaldo, que tomara gosto pela carne branca holandesa.

Se hoje perdemos o gosto pela carne humana assada não perdemos o gosto pelos pecados da carne apesar de todo falso moralismo vigente.

Fiquemos pois com a canção de Chico e Ruy Guerra interpretada por Ney Matogrosso que encarna tão bem a alma brasileira "para além do bem e do mal":


Porto Alegre, 4 de julho de 2018.
Imagem: Google
Edu Cezimbra

terça-feira, 3 de julho de 2018

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Questão de gosto


Quem já não ouviu ou não disse:

- Fulano é amargo, Sicrana é um doce.

Agora, alguém já ouviu?

- Beltrano é salgado.

Engraçado, mas dois sabores são preponderantes no gosto popular, o salgado e o doce.

O amargo ocupou o lugar do salgado nessa adjetivação, será que o “sal da terra” está em baixa?

- Ah sim, tem até alguém que é “sem sal”, deixando tácito que há os “com sal”…

Nessa hora, amargura é que é o contrário da doçura, a “salgura” ficou de lado…

O azedo também tem o seu lugar nessa galeria de sabores humanos: que pessoa azeda, dito sempre para alguém já “conservado” no tempo.

Não podemos esquecer o picante -, aí temos a nossa saudosa “Pimentinha”, Elis Regina.

Os sabores, embora sentidos em nossa vida cotidiana, na maioria das vezes não são consentidos, como vemos...

Aí tem… isso é caso para estudo, com muita investigação dos gostos humanos.


O que mais podemos aventar nestes casos?

O amargo sabor da derrota, a doçura de um beijo, a acidez de uma crítica, um comentário picante e o salgado...o salgado… o preço salgado?

Péra, o preço é salgado por que mesmo?

Porque dói no bolso do freguês, certo?

Taí, o salgado dói… ninguém gosta de sentir dor, todos tem muito medo da dor, então deixa de lado o sabor salgado nessas adjetivações, por favor?

E o que dopa, o que anestesia a dor? O doce, bingo!!!

“Com doçura, com afeto”, pode acrescentar: sem sal, que dói…e “de amargo já chega a vida”.

 "E quem morre de gosto regala a vida", já dizia minha velha mãe, abraçada no açucareiro...

Porto Alegre, 2 de julho de 2018.
Imagem: Google
Edu Cezimbra