quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Perguntas dentro da democracia


Novembro, mês do Dia da Consciência Negra e da Proclamação da República.


Porto Alegre, 9 de novembro de 2016.

Edu Cezimbra

Face a Face


  • Um certo partido nanico prega a Jesuscracia. Embora não explicite, nas entrelinhas deixa tácito que é para exorcizar a Democracia.
  • É possível ser feliz com pouco, aliás, é condição 'sine qua non' para a felicidade genuína...
  •  Tem torcedor preocupado com o rebaixamente de seu clube do coração para a série B sem se dar conta que o pior rebaixamento para a segunda divisão foi do Brasil após o golpe.
  • A crise de interpretação de texto está tão grave que é um perigo fazer ironias e sarcasmos no facebook. Muita gente interpreta a seu 'bel-prazer' e até se identifica com analogias de certo candidato com Hitler. Por isso não compartilho essas 'gracinhas'...
  • O capitalismo quer que aprendas a pescar com caniço e anzol enquanto o capitalista pesca com redes de arrastão.
  • Brasília, hoje, tem formato de B-52 bombardeando nossas inocentes hiroshimas e nagasakis com suas pecs atômicas...
  • Não demora vão crucificar o Papa. 
  • O Assange diz que Hillary é a candidata dos 1%. Péra, aí o Trump vota nela também?...Julian, vamos deixar por 0,99%, e não se fala mais nisso, ok?
  • Mujica e Francisco, quando a 'liturgia do cargo' toca as pessoas...
  • Ficção é uma mentira verdadeira em que qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidẽncia.

Facebook, novembro de 2016.

Edu Cezimbra

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Mujica a 'nosotros' representa



A primeira vez que li algo surpreendente, dito por Mujica, foi lá por 2011. Estava em Colonia del Sacramento. Comprei um diário uruguaio, abanquei-me na praça em frente ao hotel e logo me deparei com uma longa entrevista do então Presidente da República.

Lá pelas tantas ele declara, sem papas na língua, que 'os uruguaios não são fanáticos pelo trabalho, embora haja excessões"...

E o que me impressionou e alegrou vivamente foi que Mujica não estava criticando seus compatriotas pela 'falta de fanatismo' ao trabalho, mas sim, conclamando-os a não se matarem trabalhando.

A partir dessa entrevista que, para mim, foi uma espécie de identificação imediata com suas ideias e visão de mundo pude acompanhar sua crescente influência mundial.

Para ter uma ideia dessa influência há até um livro infantil em japonês traduzindo suas propostas para um mundo melhor e sua biografia já foi traduzida em mais de vinte países.

Que fenômeno de comunicação de massa é Pepe Mujica? Fenômeno inexplicável para os modelos atuais. Mujica não é nenhum astro de música pop, nem uma celebridade hollywoodiana, nem presidente de uma grande potência mundial, mas aonde quer que vá atrai multidões para lhe ouvir.

Qual o seu segredo?, devem se perguntar os marqueteiros políticos e publicitários de marcas.

Bom, talvez não tenha segredos mesmo...

Vida simples, casa humilde, um fusca velho para se deslocar, assim é Mujica.

Quando Presidente do Uruguay doava a maior parte do seu alto salário para organizações populares que tocavam projetos sociais.

Outro aspecto relevante de sua extensa biografia política é encarar de frente questões espinhosas como descriminalização da maconha e do aborto que colocaram o Uruguay na vanguarda mundial de políticas públicas bem sucedidas nessas áreas polêmicas para a opinião pública.

Também não poupa palavras quando se trata de sacudir o 'status quo', o 'establishment' e o 'mainstream'. Por isso, suas muitas aparições em eventos internacionais, entre eles conferências da ONU, são marcadas por sua contribuição original ao debate das questões emergentes.

Pergunto: qual é a maior contribuição de Mujica ao mundo em crise?

- É possível ser feliz com pouco, aliás, é condição 'sine qua non' para a felicidade genuína... 

E, aí aparece a sua grande capacidade de convencimento, tão grande que incomoda muita gente moldada pelo sistema capitalista globalizado.

Essa mensagem de vida simples e de baixo consumismo não significa que ignore a grave situação de desigualdade e injustiça que atravessa o planeta.

Nesse ponto, Pepe Mujica trata é de reafirmar os princípios da igualdade e da justiça, amparados pela política e pela democracia que tanto preza.

"Mais um discurso", dirão os céticos da política, ressabiados com as muitas promessas eleitoreiras.

Não é o caso de Pepe, que já não é candidato a nada, e que é um dos raros políticos que atualmente pode se dar ao luxo de escutar a declaração emocionada de muita gente,mundo a fora, na qual me incluo: 

" Mujica nos representa!"

Porto Alegre, 8 de novembro de 2016.


Edu Cezimbra 




domingo, 6 de novembro de 2016

Os novos comentaristas de futebol e política


- Vamos ouvir o torcedor. Seu nome e cidade, o que está achando do jogo, amigo?

- Claudiney, de Morro Redondo. O jogo no primeiro tempo foi muito mais de força do que qualidade técnica devido às condições do gramado. Precisamos mexer no ataque pois fomos pouco agudos no quesito ofensivo e o meio-de-campo tem que jogar mais compactado para dominar o setor. 

Parece mesmo um comentarista de futebol ou técnico, digo, 'professor', não?

Quem ainda escuta futebol no rádio reconhecerá que o comentário do fanático torcedor não foge da realidade das arquibancadas.

Demonstra que, como já disse alguém, "todo brasileiro é um técnico de futebol" e atualmente "um tarimbado comentarista de futebol", digo eu...

Atualmente com o advento das redes sociais na internet apareceu outra figura que também se arroga de comentarista, só que político.

Se entrevistado, o teor de seus comentários seria mais ou menos assim:

- Jacinto Filho, de Pau Fincado. Olha, eu não gosto de política. São todos 'ladrão' e tem que prender todos os petistas e acabar com esses comunistas.

- E a eleição?

- Eu voto nas pessoas, mas não nos petistas, esses que quebraram o Brasil e querem acabar com a família brasileira defendendo 'gay' e bandido e que ensinam comunismo na escola.  

Quem tem estômago e consegue ler esse tipo de comentário sabe que são bastante comuns, infelizmente.

O mais estarrecedor é que esses 'comentaristas políticos' também poderiam emitir suas abalizadas opiniões em qualquer veículo de comunicação brasileiro. seja rádio, TV, jornal ou revista, que não destoariam da linha editorial dessas empresas de 'jornalismo' e de seus asseclas.

E mais, muitos deles são candidatos a um mandato político, e o pior é que muitos estão se elegendo com o discurso fácil de que 'não sou político', 'não tenho estratégia', e todas essas falácias marqueteiras.

A minha dúvida é se teremos maturidade política para mudarmos esse quadro tétrico da política brasileira - algum dia -, que pelo andar da carroça está bem distante...

Para ser sincero,  minha aposta não é nos que estão dentro das instituições formais.

Aposto todas as minhas fichas nos jovens que estão ocupando escolas, universidades e outros espaços aprendendo e nos ensinando novas formas de atuação política.

Vou torcer muito por esse time...


Porto Alegre, 6 de novembro de 2016.

Edu Cezimbra












sábado, 5 de novembro de 2016

Concretismo parnasiano






Rimas pobres
                rimas ricas
                ricas rimas
           precisar rimar
     maior dever
                 do poeta

Rigor métrico
                   canônico código
                   código canônico
          máximo rigor 
                        da poesia

Roteiro programático
                         modelo máximo
                         máximo modelo
              parnasiana estética
                               do poema

Regra academicista
                        contenção cadenciada
                        cadenciada contenção
          assídua disciplina
                        do parnaso 

Porto Alegre, 5 de novembro de 2016.

Foto: Francisco Cezimbra

Edu Cezimbra
 
 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Nos alambrados das palavras e das frases


Frases são palavras alinhadas em uma sequência lógica e as palavras são sílabas justapostas.

Até aqui nenhuma novidade...

Então as frases são orações com sujeito, verbo, predicado e objeto direto ou indireto... Não, isso é gramática.

Já o dicionário contém palavras organizadas em ordem alfabética, porém não adianta decorar todas as suas palavras para entender ou escrever uma frase.

As palavras até podem estar alinhadas em um dicionário mas não formam frases. Note bem: nenhuma frase. Formam, isso sim, o léxico de uma língua.

E aí lembro do dislético. Será o sujeito que não sabe ler? Também não. Dislexia é quando não se consegue dar sentido às palavras encadeadas em uma frase.

Até se pode dizer sem ser politicamente incorreto  que o analfabeto mais difícil é o dislético que não consegue ler por uma lesão cerebral.

O analfabeto funcional não tem lesão cerebral...visível.

Temos também a figura do frasista. Aquele personagem, hoje muito atuante no Facebook e no Twitter, que escreve frases intencionalmente engraçadas (ao menos para ele)...

Há quem conheça as letras e como dizia aquele 'índio véio' da campanha gaúcha, "não sei acoierá (acolherar) as letras"....

Mal sabe o 'campônio' que mesmo depois de 'parar rodeio' das letras a boiada prosseguirá desgarrada. 

Para 'tocar a boiada' é preciso o sinuelo do sentido, que até  boi entende...

Tchê, acho que não entendi ( o gaúcho do campo não falaria assim). Antes diria: "tô mais perdido que cusco em tiroteio ou cego em procissão".

Agora faça o seguinte: dê ao 'vivente' o livro de poesia gauchesca do João da Cunha Vargas ou mesmo um livro do João Simões Lopes Neto, seja 'Contos Gauchescos ou 'Lendas do Sul'. 

Capaz de entender as frases até por adivinhação!

E, curioso, o leitor de outras regiões é que não entenderia metade das palavras e das frases.

Por exemplo, este parágrafo do livro de Cyro Martins, 'Estrada Nova':


"Janguta sofrenou o matungo, cravou-lhe as esporas e derrubou-lhe o rebenque virilha abaixo. O tostado que tropicara por vir estropiado e meio dormindo na mormaceira da estrada, depois de trotear três ou quatro léguas no pedregulho áspero espantou-se com o relhaço e enveredou para um lado, de pescoço torcido, o freio agarrado nos dentes, cego, à toa, indo esbarrar de peito na beira do alambrado."

Entendeu?... 


Porto Alegre, 4 de novembro de 2016.

Edu Cezimbra







quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O alimento do amor


Aos amantes e poetas, que fazem da poesia alimento do amor!

Porto Alegre, 3 de novembro de 2016.

Foto: Francisco Cezimbra

Edu Cezimbra

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Diário de Finados


No Brasil é 'Dia dos Finados', uma maneira cerimoniosa de nomear os 'falecidos', ou melhor, os mortos: o 'finado Fulano de Tal', o 'finado meu avô', a 'finada minha tia'.

Diferente do México, que nesse dia faz um barulhento carnaval com visitas e 'velórios' nos túmulos dos familiares, levando comida e bebida para seus mortos, no que denominam 'Dia de Los Muertos'.

Não tenho a menor ideia de onde se origina essa forma tão obtusa de lidar com a morte no Brasil.

Até parece que os mortos são culpados por...morrerem.

Pensando bem, não difere muito de quem tem um câncer.

Talvez aí, uma pista desse mistério brasileiro: a negação do câncer (epidêmico) e da morte.

Lembro que quando guri tinha um medo danado de tudo que se relacionasse com a morte.

Passava do outro lado do da rua, sem olhar para os 'caixões de defunto' (outro jeitinho brasileiro de chamar o morto) da 'armadoria' (funerária) perto de casa. 

O 'pano preto' na frente da casa onde se velava o morto também era de arrepiar, assim como todo o aparato do velório que se estendia noite a dentro.

Outro pavor que tinha era de ser enterrado, vivo ou morto; imaginava como seria horrível ficar fechado em um caixão enterrado em uma cova ou emparedado em um cemitério.

E o drama não acabava com o enterro do finado, não...muito pelo contrário.

Havia um longo período de luto familiar onde o viúvo ou viúva se fardava de preto e assim circulavam pelas ruas da cidade com o rosto lamurioso de quem sofria uma dor irreparável.

A presença de um familiar do morto em uma festa era motivo de falatório na vizinhança, que dirá dar uma festa, estas estavam adiadas até o final do longo período obrigatório de luto.

Para ter uma ideia do interdito basta ir ao Teatro Colón, em Buenos Aires, e verificar os furos nas paredes, perto do palco, que eram usados pelas viúvas ricas para assistirem suas óperas preferidas sem se exibirem em público.

Acho que a diferença básica entre o México e o Brasil é a maneira de encarar a Morte.

No Brasil, a morte é vista como uma derrota tão abominável quanto o câncer.

Já no México a Morte tem uma conotação de celebração...da vida, assumindo 'La Muerte' como uma dimensão do mundo dos vivos.

Ou seja, há uma aceitação da Morte e de seus inexoráveis seguidores, que somos todos nós, os vivos e os mortos...

Fernando Pessoa assim cantou a Morte:

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.
A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

Porto Alegre, 2 de novembro de 2016.

Foto: "Jarro preto  e caveira", de Pablo Picasso

Edu Cezimbra