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quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Cadernos Cheios

 


Poeta de vagas horas, cronista nas horas vagas, frases feitas todo dia, vou enchendo meus cadernos. 


Porto Alegre, 6 de fevereiro de 2025.

Imagem: Google

Edu Cezimbra

quarta-feira, 9 de março de 2022

Bom Garfo

 


"Bom garfo", eis uma expressão que não se aplicava ao guri baixinho e franzino.

"Formigão" sim. Atacava com regularidade o baleiro e as caixas de bombom e chocolate do bolicho do pai.

Lógico que não tinha fome.

Era um "mau garfo"...

Chegava ao ponto de jogar a comida do seu prato na "lavagem" dos porcos.

Gostava de beterraba cozida da salada porque era doce.

Leite só condensado.

Refeição pra ele era o chocolate.

Não era um "bom garfo" até que o pai vendeu o bolicho e o adolescente foi estudar em outra cidade.

Não sabe se a privação dos doces ou a explosão hormonal, o fato foi que de um dia pro outro começou a ter uma "fome canina".

Não havia feijão e arroz que chegasse.

A dona da pensão onde comia tinha que servir tigelas e mais tigelas de feijão e arroz para saciar a fome do seu, agora, esfomeado mensalista.

O guri magrinho engordou, prestou o serviço militar obrigatório e pegou corpo.

Só não perdeu o gosto para o chocolate que come com relativa moderação...

 

Porto Alegre, 9 de março de 2022.

Imagem:Pinterest

.Edu Cezimbra

sexta-feira, 4 de março de 2022

Calçamentos

 


A gurizada da zona aprendeu com os mais velhos que a pavimentação da rua onde brincavam era  "o calçamento". 

Foi o acontecimento do ano para a piazada.

As obras para o calçamento da rua onde moravam eram feitas com muitas mãos.

Não faltava mão de obra para ir calçando as pedras de arenito, lado a lado, sob a "supervisão" das crianças.

Os montes de areia e de paralelepípedos eram perfeitos para os brinquedos de rua.

Esperavam "bem-comportados", sentados nos degraus do bolicho o final de mais um dia de serviço para tomarem conta do material à disposição.

No outro dia, vinha a bronca do chefe do pessoal reclamando da areia e das pedras espalhadas durante a brincadeiras.

De fato, para guris de cidade do interior, aquela areia toda era a nossa praia.

Os paralelepípedos, felizmente, eram grandes e pesados para as mãos pequenas, mas, mesmo assim, os castelos de pedra se erguiam ao pôr do sol.

Depois de finalizadas as obras de calçamento da rua viam-se donas de casa felizes com a ausência da "polvadeira" e do "barral" em dias de chuva.

Os bolicheiros, açougueiros e outros comerciantes também se regozijavam pois seus negócios, agora com a rua calçada, eram mais prestigiados.

Uma lástima que estes calçamentos foram depois cobertos por asfalto, escondendo tantas histórias e impermeabilizando as ruas para as águas da chuva e das memórias da infância...

O calçamento, agora, só me aparece em sonho, como o de ontem, em que ajudava com minha companheira atual a calçar a calçada da rua da minha infância! 

 

Porto Alegre, 4 de março de 2022.

Imagem: Pinterest

Edu Cezimbra 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

A Felicidade Não Se Compra

 


Esta semana li a introdução do livro de Joseph Stiglitz, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, "Povo, Poder e Lucro" onde defende um "capitalismo progressista" para superar "uma era de descontentamento".

Comentei com minha companheira que a proposta de Stiglitz para os EUA é a que os governos de esquerda aplicam na América Latina, pela excessão de não proporem o controle político da economia globalizada.

Ainda ontem, assisti um filme em preto e branco, antigo mesmo, sem pretensões a filme de arte, mas com a de contar uma boa história de Natal.

No desenrolar de "A Felicidade Não Se Compra" fui me dando conta que o filme contava a história de um "capitalista progressista" preocupado em apoiar a melhoria das condições de vida de todos os seus concidadãos.

O filme hollywoodiano, da década de 40, conta a história de um banqueiro que empresta dinheiro aos pais de família para que estes pudessem garantir um futuro melhor a seus filhos.

Ao que o banqueiro ambicioso  e cruel retrucava "não são meus filhos", dando a entender que pouco se lixava com o infortúnio das pobres crianças e de seus infelizes pais.

O drama do filme é sobre o personagem preocupado com o bem-estar e a felicidade dos seus semelhantes que se vê em dificuldades financeiras e pensa em suicídio até que um anjo sem asas vem em  seu auxílio.

A grande ajuda do velho anjo é mostrar como seria vida das pessoas que o banqueiro apoiu, sem ele.

Dou-me ao trabalho de transcrever um trecho da introdução do livro de Stiglitz para que o meu caro e raro leitor perceba a semelhança com o filme:

"As consequências dessa economia e dessa política deformadas vão além da economia; elas afetam não somente a nossa política, mas a natureza de nossa sociedade e identidade. Uma economia e uma política desequilibradas, egoístas e sem visão levam a indivíduos desequilibrados, egoístas e  sem visão. reforçando a fraqueza do sistema econômico e político."

 


Porto Alegre, 15 de desembro de 2021.

Imagem: cartaz  do filme, Google

Edu Cezimbra

 

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Machado

 


"O melhor dos bens é o que não se possui", escreveu Machado de Assis; digo eu - o melhor dos bens é o Bem Comum -, ao que o afiado autor rebateria com o "contentamento traz derramamento".

Como é cortante este Machado, bem ao gosto de Dostoiéviski!


Porto Alegre, 3 de dezembro de 2021.

Imagem: K. Gayvoronskaya, Pinterest

Edu Cezimbra

sábado, 16 de outubro de 2021

Fracasso e Sucesso

 

Fracasso e Sucesso são irmãos siameses.

A operação foi um fracasso, o que redundou nesse sucesso.

Obrigados a sempre estar juntos um conhece o outro mais que a si mesmo.

Interessante que isso acontece sem alienação ou sentimentos mesquinhos tais como o ciúme e a inveja.

O que merece ser destacado é o mútuo reconhecimento, resultando daí grandes aprendizagens.

Fracasso ensina a ser bom perdedor e reconhecer o sucesso alheio.

Sucesso ensina a não estar ao lado de maus vencedores que tornam a vida alheia um fracasso total.

E por aí gira a roda da fortuna...

Enfim, Fracasso e Sucesso são faces de uma mesma moeda chamada Real.

Só uma coisa Fracasso não aceita: um time de futebol se chamar Bonsucesso, aí já é demais...


Porto Alegre, 16 de outubro de 2021.

Imagem: Google

Edu Cezimbra

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Ya No Estoy Aquí



Mais uma "película" mexicana que abala as estruturas do pensamento único.

O que faz  "Ya No Estoy Aquí" ser tão impactante é a própria história do México e dos EUA, além de ser um bom filme, claro.

Visto dessa forma: quando a crise se torna histórica aparecem as alternativas, embora derrotadas,  ou, se quiserem, desprezadas.

Para o cinéfilo brasileiro, interessado em culturas da periferia, a analogia é com as batalhas do pezinho nas favelas cariocas.

A grande surpresa deste filme é  que a juventude da periferia de Monterrey curte música folclórica latino-americana, entre elas a cúmbia e outros ritmos batizados por ela de "colombianas" com uma pegada de "street dance".

Além disso, suas indumentárias e comportamento são tribais.

As disputas ocorrem entre as tribos, as "pandillas", e são um dos pontos altos do filme.

"Los Tercos" é o significativo nome da turma de Ulisses, o protagonista do filme.

Como sugere o título espanhol da "película", Ya No Estoy Aquí", esta nos mostra uma triste realidade do México e de todos os países latino-americanos dominados pelo "mainstream".




Porto Alegre, 15 de outubro  de 2021.

Imagem: cena do filme, Google

Edu Cezimbra