sábado, 3 de setembro de 2016

Feuerbach e a aldeia alemã


"Aprendi lógica em uma universidade alemã, mas só pude aprender ótica, a arte de ver, em uma aldeia alemã (...) Aqui se respira o ar puro e são. A filosofia especulativa da Alemanha é uma amostra das funestas consequências da contaminação atmosférica das cidades."

O filósofo Feuerbach fez esta crítica ferina à filosofia hegeliana, dominante em sua época.

O que, de certa maneira, torna o filósofo alemão um pioneiro da ecologia, já que ele fez esta observação lá por 1840-50.

Até que ponto a dura acusação à 'filosofia especulativa alemã' é objetiva ou mera figura de linguagem não saberemos jamais...

Ao ler esta citação de Feuerbach lembrei de uma crônica que escrevi há um tempo atrás denominada "Memórias do Ar'. Nela falo da importância do ar puro da mata como fonte de inspiração.

Honestamente, não me recordo de ter lido o livro de onde pincei a citação antes de escrever a crônica. Desconfio que  escrevi depois de ter lido parte do livro, mas as palavras do filósofo alemão não me ocorreram no momento de escrever.
Pena, senão colocaria no meu texto.

A propósito, o livro  onde  li este aforismo 'ecológico' de Feuerbach chama-se "O Jovem Marx", de Celso Frederico.


Porto Alegre, 03 de setembro de 2016.

Edu Cezimbra 

A História dos Oprimidos


A história dos oprimidos não está nos livros, nem nos arquivos históricos, muito menos em discursos políticos ou acadêmicos.

Tudo isso são versões dos opressores.

A história 'oficial' é a que esconde as versões de quem sofreu a injustiça e a opressão. Se quisermos descobrir o que de fato aconteceu não será nos registros oficiais.

A história dos oprimidos está onde a memória da língua nativa ainda resiste aos colonizadores.

A história dos derrotados é escrita com sangue, suor e lágrimas. E é lida em cada rosto sofrido, na boca desdentada, no corpo embrutecido que ainda dança, joga capoeira, conta histórias a 'boca pequena' ao 'pé-do-ouvido' de quem confia.

Não é na lata do lixo da história (lugar de golpistas)  que vamos achar os testemunhos de opressão, genocídios e exclusão dos pobres.

Essa história dos excluídos vamos achar nas culturas populares onde os registros 'não-oficiais' são transmitidos de mestres para aprendizes.

Quando a história dos oprimidos começa a ser escrita  as versões dos opressores vão para a 'lata do lixo da história'.

A Nossa História

Conto a nossa história
Para meus filhos
Com minhas mãos calejadas
Meu corpo embrutecido
Na batalha cotidiana do pão

Conto a nossa história
Para comadres e compadres
Com minha boca desdentada
Meu rosto sofrido
Debaixo de uma mangueira

Sabem de nossa história
As crianças ao escutarem 
De seus pais e avós
Nas rodas e folguedos
As antigas canções e parlendas

Sabem de nossa história
Aqueles que de nós são próximos
De corações e mentes abertas
Ouvidos para ouvir sem medo
De juntos sofrer e chorar




Porto Alegre, 03 de setembro de 2016.

Foto: Vó Chica

Edu Cezimbra






sexta-feira, 2 de setembro de 2016

A Nossa História


Conto a nossa história
Para meus filhos
Com minhas mãos calejadas
Meu corpo embrutecido
Na batalha cotidiana do pão

Conto a nossa história
Para comadres e compadres
Com minha boca desdentada
Meu rosto sofrido
Debaixo de uma mangueira

Sabem de nossa história
As crianças ao escutarem 
De seus pais e avós
Nas rodas e folguedos
As antigas canções e parlendas

Sabem de nossa história
Aqueles que de nós são próximos
De corações e mentes abertas
Ouvidos para ouvir sem medo
De juntos sofrer e chorar


Porto Alegre, 02 de setembro de 2016

Foto de "A Família' de Tarsila do Amaral

Edu Cezimbra

domingo, 28 de agosto de 2016

Diário de Viagem: Toledo, Espanha


Peço licença poética a Cervantes para que os seus míticos, lendários personagens, 'Don Quijote de La Mancha' e seu fiel escudeiro 'Sancho Panza', sejam nossos guias nessa visita inesquecível.

Presente em cada loja de lembranças, nas vitrines, nas calçadas, entende-se logo, ao se chegar na rodoviária de Toledo, por que Dom Quixote vivenciaria suas fantasias e delírios com muita intensidade nessa cidade.

Portas, muralhas, castelos, pontes romanas, igrejas, catedral, palácios apertados em ruas estreitas calçadas com pedras tornam muito presente o 
cenário de romances de cavalaria tão ao gosto do 'cavaleiro de triste figura' de Cervantes.

O rio que banha Toledo é o 'Tajo', nome espanhol do mesmo Rio Tejo de Lisboa. Nem Fernando Pessoa pode se dar o luxo de ter o Tejo como o rio que banha a sua aldeia...

Logo ao chegar a uma das suas muitas portas deparamos com uma manifestação popular de direito à água do 'Tajo' para abastecimento da população de Toledo. Mesmo em uma cidade murada as questões ambientais invadem suas muralhas e inquietam seus habitantes...


Toledo foi erigida em cima de uma colina que é quase uma ilha, circundada que é pelas águas mansas de seu rio. Escolha estratégica para sua defesa como comprovam os altos muros de pedra que circundam toda a cidade ligada por pontes romanas com portas que são em realidade torres fortificadas.

Dom Quixote ao passar por Toledo não teria que alucinar demais...

Outro aspecto notável de Toledo é sua arquitetura medieval com influência mourisca e judaica.

Palácios magníficos e mosteiros com claustros amplos ricamente ornamentados com colunas, abóbadas e janelas imensas abrindo para pátios internos com belos jardins e fontes transmitem uma sensação de contemplação e paz.

A Catedral de Toledo é uma das mais ricas da Europa com imensos vitrais, pinturas e altares revestidos de ouro. Situada entre ruas estreitas calçadas com pedras que formam um intricado labirinto cujo 'fio de Ariadne' é a torre alta da catedral espremida entre o casario e sobrados com sacadas de ferro ou madeira dando uma configuração muito peculiar ao sítio histórico.

Famosa há séculos sua cutelaria e ourivesaria com filamentos de ouro, herança árabe, atrai muitos visitantes para suas oficinas abertas ao público que pode observar de perto o trabalho de seus artesãos e adquirir suas obras.

A foto que ilustra este diário de viagem com a estatueta de 'D. Quijote e Sancho' tem como pano de fundo uma pintura: 'La Vista y Plano de Toledo'  do famoso pintor renascentista 'El Greco' que buscou refúgio em Toledo após ter suas obras rejeitadas em Madri. Existe um museu dedicado a ele com réplicas de móveis e aposentos da casa onde morou 'El Greco' assim como a exposição permanente de muitas de suas obras-primas, entre elas a réplica de 'Lágrimas de San Pedro' cujo original está na Catedral de Toledo.

Culminando este cenário de rara beleza encontra-se a fortaleza de Alcázar com seus museus de armas, uma espécie de coroa desta cidade que poderia ser intitulada por Dom Quixote de "Reina de La Mancha". 


Toledo, 31 de janeiro de 2016.

Fotos: Francisco Cezimbra

Edu Cezimbra







sábado, 27 de agosto de 2016

Banho da Lua



A Lua e as estrelas 
estavam se admirando 
no lago, ontem à noite...

"Porque altas estão"
saltos ornamentais
deram na serena 
água do lago, 
as estrelas e a Lua,
a se banhar...

Porto Alegre, 28 de junho de 2012.

Edu Cezimbra

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Poema borrado


A poeta Adélia Prado chorou
ao ler um poema
do Carlos Drummond de Andrade.

Chorou em uníssono
cada palavra lágrima
na folha do livro.

Cada palavra dissolvida
na gota salgada de saudade
rolava na página borrada.

E deixava no poema
e no poeta 
manchas marcadas de amor 
à poesia.


Porto Alegre, 26 de agosto de 2016.

Edu Cezimbra

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Minha terra tem 'muitas' palmeiras

O Rio Preguiça é um longo oásis de rara beleza com águas cristalinas margeado por buritis, coqueiros e jussaras. Gonçalves Dias foi modesto em seus versos saudosos pois poderia ter dito sem exagero: "minha terra tem 'muitas' palmeiras"! — em Lençóis Maranhenses _ Barreirinhas-MA.

Edu Cezimbra