Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor,
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior…
Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor,
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um Senhor…
Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais…
Ser mulher, e oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
GILKA MACHADO (1893-1980)
Vinda de família de artistas, com mãe atriz, parentes poetas e
músicos, Gilka Machado foi uma grande poeta, que, nesses últimos anos,
infelizmente caiu no ostracismo. Publicou em 1915, aos 22 anos, seu
primeiro livro,
Cristais Partidos. Durante a década de 1920, continua a escrever, lançando
Estados d’Alma (1917),
Mulher Nua (1922),
Meu Glorioso Pecado (1928), e
Amores que mentiram, que passaram
(1928). Foi uma importante precursora da literatura erótica escrita por
mulheres. Em 1979, recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia
Brasileira de Letras.
Foto: Edu Cezimbra