sexta-feira, 6 de maio de 2016

Stendhal e o Presidente da Câmara

O senhor de Rênal passeava pela Alameda da Fidelidade

Em "O Vermelho e o Negro", Stendhal abre o livro com a descrição do presidente da Câmara de uma certa cidadezinha dos Alpes franceses:


"O seu aspecto faz tirar imediatamente todos os chapéus. O cabelo é grisalho, e veste-se habitualmente de cinzento. Tem testa alta, nariz aquilino, e é cavaleiro de várias ordens; no conjunto, a sua fisionomia denota uma certa harmonia; dá até a ideia, à primeira vista, de que à dignidade de presidente da Câmara ele adiciona a aparência agradável de que se pode ser possuidor aos quarenta e oito ou cinqüenta anos. Contudo, cedo o viajante parisiense se sente chocado por um certo ar de admiração por si mesmo, numa mistura de um não sei quê de tímido e isento de imaginação. Enfim, nota-se que aquele indivíduo se limita a fazer pagar prontamente o que lhe devem, e pagar o mais tarde possível aquilo de que é devedor.
Este é o presidente da Câmara, senhor de Rênal."
 Pelo parágrafo acima o leitor imediatamente perceberá que Stendhal pinta o presidente da Câmara como um finório larápio. 

Adiante, o digno senhor presidente da Câmara reclama, de braços dados com sua gentil e bonita esposa, da presença de um jornalista, nestes termos:

- Esse senhor de Paris poderá vir a arrepender-se - comentava o senhor de Rênal, num tom de ofensa, um pouco mais pálido que habitualmente, - Usufruo de amizades no Palácio...
- Mas - dizia com medo a senhora de Rênal - como poderá prejudicar este senhor de Paris, se você administra os bens dos pobres com a mais escrupulosa probidade?
 - Ele vem para exercer a censura, depois publicará os artigos nos jornais liberais.
- Você jamais os leu.
- Porém comentam-se estes artigos jacobinos; isso tem por fim desviar-nos as atenções e impedir-nos de fazer o bem. De minha parte, nunca absolverei o cura.

 Li estes trechos de o "Vermelho e o Negro", tomando um "quentão", sentado junto a uma mesa no largo do Mercado Público de Pelotas, ontem, 05 de maio de 2016.

Sem internet, como costumo fazer quando viajo, para apreciar bem o lugar.

Depois brinquei com uma colega de minha companheira, que era um tanto perigoso andar com um livro como "O Vermelho e o Negro" nestes tempos de tanto ódio político...



Porto Alegre, 06 de maio de 2016.

Edu Cezimbra

Desenho: Otto Pierre Editores