quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

As Portas da Percepção


Gastamos, hoje em dia, muito mais em cigarros e bebidas que em educação. E nada há de surpreendente nesse fato. O impulso para fugir a nós mesmos e ao que nos rodeia está presente em cada um de nós, quase todo o tempo. Jamais a inabalável convicção na existência do Inferno conseguiu evitar que os cristãos fizessem aquilo que lhes sugeria a ambição, a luxúria ou a cobiça. O câncer pulmonar, os acidentes de tráfego e os milhões de criaturas miseráveis e criadoras de miséria em razão do alcoolismo são realidades ainda mais positivas que o Inferno no tempo de Dante. Mas tudo isso é remoto e secundário, se comparado com a realidade vivida e presente de uma ânsia por serenidade ou liberdade, por um cigarro ou uma taça.

Não posso falar por Aldous Huxley, mas aposto que esse genial romancista e ensaísta seria totalmente a favor da descriminalização das drogas.

No seu célebre romance 'Admirável Mundo Novo', paradoxalmente, alerta para os riscos dessa medicalização indiscriminada da sociedade com a droga sintética.

Reparemos que juntos com o 'soma' vem junto o sexo livre e sem vínculos afetivos assim como as diversões através de jogos eletrônicos e individualistas.

Mas como ele mesmo escreve, o proibicionismo não resolve o enorme problema da dependência química. Pelo contrário, aumenta em muito os delitos cometidos pelos traficantes e adictos:


 Os problemas criados pelo álcool e pelo tabaco não podem ser — e isto não admite contestação — resolvidos pela proibição. O impulso universal e permanente para a autotranscendência não pode ser dominado pelo simples fechar das solicitadas Portas na muralha. A única política razoável seria abrir outras portas melhores, na esperança de induzir os seres humanos a trocar seus velhos maus hábitos por práticas novas e menos prejudiciais. Mas é inevitável que perdure, apesar de tudo, a necessidade de freqüentes excursões químicas para longe da intolerável personalidade e dos repulsivos arredores de cada um.

Pragmaticamente, Huxley, como um profundo conhecedor do inconsciente coletivo e da alma humana parte das premissas corretas para propor uma 'política' para as drogas. 

Sem esquecermos que o proibido é uma droga potente e tentadora, mas isso já é assunto para outra crônica...ou poema

Porto Alegre, 16 de fevereiro de 2017.

Edu Cezimbra