quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Pai, afasta de mim esse cálice


Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa


'Feito na calada da noite' é coisa de malfeitores. Mas o que fazer depois do malfeito? O que dizer se não há mais nada a fazer? 

Na calada da noite eu me dano se não falo nada ou me calo por medo.

Pois é na calada da noite que se ouve melhor...

Foi feito na calada da noite mas fez um barulho e tanto.

Quando é 'fato consumado na calada da noite' nada melhor que seja 'fogo-fátuo'.

Mas não confunda fogo-fátuo com fato consumado. 

O que Chico Buarque denuncia com sua música 'Cálice' é que muitos que não calaram foram presos, torturados e mortos pela ditadura militar.

Em muitos casos foi preciso calar para não ir para o calabouço.

Mas não confunda calabouço com 'cala-boca' como fazem as ditaduras:




Porto Alegre, 30 de novembro de 2016.

Foto: Mídia Ninja

Edu Cezimbra

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Aos guerreiros da Chapecoense



Navegar é preciso, não é preciso viver,
Disse o general romano Pompeu
Aos seus marinheiros rumo ao combate.
Na guerra a morte é próxima
O que não é certo é a morte em um voo.
Aconteceu em Medellín, na Colômbia,
Quando o pássaro de ferro na serra desintegrou,
As asas de mais um ícaro derreteram ao sol.
Na barriga deste pássaro de ferro
Voavam jovens atletas da ‘Chape’ do futebol.

A final da Copa Sul-Americana iriam disputar.
O verde e o branco nesse trágico dia
Misturaram-se com o barro…
Em choque, clamamos às musas, socorro poesia:
Mas quando muitos homens morrem
Seja qual for em uma guerra estavam juntos.
Uma batalha travaram com coragem e sacrifício
Em busca dos louros da vitória. Sob suas asas,
Serão os heróis do povo,  em prosa e verso  cantados,
Da  nação orgulhos, eternamente lembrados.

Porto Alegre, 29 de novembro de 2016.

Edu Cezimbra  

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Trem noturno para o interior



"Seriam os joelhos morenos de Maria João ou o perfume do sabonete em seu vestido claro aos quais quero voltar? Ou se trata do desejo - o desejo patético, de sonhos - de voltar àquele ponto da minha vida e tomar um rumo bem diferente do que aquele que fez de mim o que sou agora?"
As reflexões originais e intensas do médico português Amadeu de Almeida Prado fazem o professor de línguas clássicas Raimund Gregorius largar uma vida regrada e monótona em Berna para pegar o "trem noturno para Lisboa", título do romance de Pascal Mercier , pseudônimo do filósofo Peter Bieri. 

A fuga de 'Mundus' também parte do encontro com uma misteriosa mulher, cuja 'língua materna' é o nosso português (ou melhor, o 'purtugueis' de Portugal).

Foi esse encontro 'ao acaso' com uma mulher estrangeira em Berna que fez Gregorius dar a guinada brusca em sua insípida vida e partir para Lisboa em busca de algo indefinido para ele.

Não por acaso escolhi a citação que conta de uma outra mulher, na época, a menina Maria João,'de joelhos morenos e vestido recendendo a sabonete'.

Chamo a atenção aí para a importãncia das mulheres como catalizadoras de mudanças nos homens, as musas inspiradoras, ou mesmo a 'anima' arquetípica descrita por Jung.

O filólogo 'Mundus' lê as palavras em português encantado com a beleza das mesmas:

" - Um ourives das palavras, não é belo esse título?
- Calmo e elegante. Como prata fosca. Por favor, pode repetí-lo em português?
O livreiro repetiu as palavras. Era evidente que , para além das palavras, ele se deliciava com a sua sonoridade aveluda"
Afinal, o que fez mesmo Raimund Gregorius mudar tão repentinamente?

Arriscaria que essa expressão "pegar o trem noturno para Lisboa", já consagrada como figura de linguagem para uma mudança radical de vida só acontece porque em 'Mundus' - e em cada um de nós - existe um 'fruto do carvalho', expressão cunhada pelo psicólogo James Hillman no seu livro 'O Código do Ser': quando mais cedo ou mais tarde escutamos a voz interior da alma, nosso daimon, e nos tornamos o que sempre fomos.


Porto Alegre, 28 de novembro de 2016.

Edu Cezimbra  
 
 

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Breque Friday




Hoje tem 'brequefridei'!

Mas não foi em outubro?

Não, esse foi o 'rauolim'. Hoje tem 'liquida'...

Valha-me, Nossa Senhora, diria Ariano Suassuna ao escutar um 'diálogo' desses...

Que facilidade de imitar o que não é nosso, em sendo dos 'isteites', -  agora 'Black Friday' já é demais, não?

Ah, quéquitem...vamos aproveitar que está tudo mais 'em conta'...

Sei, a conta vai aumentar.

Mas quem resiste a tanta tentação? Tudo mais barato!

Barato que sai caro... Reza um 'Pobre-Nosso' assim: "não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos das dívidas."

Chato, vê quanta pechicha nas lojas...

Ecochato, - repete comigo: "só por hoje não comprarei nada."

Logo hoje?!

Especialmente, hoje, e nas próximas sextas liquidadas...

Mas olha que barbada essa Laser TV de cem polegadas!

Barbada só a mulher de circo, isso há muito tempo atrás...

E essa promoção? Tem uma oferta imperdível!

Imperdível é a vida sem dívidas.

Pô, dá um desconto...

Desconto é  'conto do vigário', quer que eu conte?

Deixa pra lá, não me conta...

Porto Alegre, 26 de novembro de 2016.

Foto: News

Edu Cezimbra


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Abaixo a repressão



Na hora do orgasmo

Bem na hora do gozo

Alguém te bate no ombro:

“Tu não pode gozar, cara”


- Não se submeta à repressão

Abra as comportas da represa

Diminua essa pressão

Mas não tenha pressa

Orgasmo não é nenhuma provação


Faça a sua regra

Seja a exceção

Puxa um bonde do desejo expresso

Em busca de tesão


Não entre em recesso

Caga para a reprovação

Se tua é a vida

A ninguém deves satisfação
 
Porto Alegre, 25 de novembro de 2016.
 
Foto: Teto da Capela Sistina, Vaticano
 
Edu Cezimbra 

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O semeador de palavras



De tanto ouvir "tem que falar menos e agir mais" optou por ficar em silêncio. 

Começou a escrever. Não com a pretensão de se tornar escritor, nada disso...

É que, como se tornara silencioso, precisava de algo para não esquecer as palavras.

Lá no fundo, bem no fundo, ficava muito aborrecido quando ouvia essa condenação absoluta das palavras.

Sempre sentira muito prazer em lecionar oratória. Com o passar inexorável do tempo percebeu que suas aulas eram mesmo palavras jogadas ao vento, quando não flechas envenenadas...

Pensou que melhor que jogar palavras fora seria plantá-las nas páginas em branco de um caderno.

Não com a intenção de publicá-las em livros. Mais com o intuito de guardar, de armazenar as palavras, feito um banco de sementes aptas a germinar ideias.

Além do mais sempre gostara de escrever por escrever mesmo... Obtinha um prazer secreto em semear uma palavra na folha e ver que ela puxava mais palavras formando frases antes impensadas.

Aí, com pouco esforço, era como se abrisse uma fonte de onde jorravam abundantes muitas palavras novas.

Não precisava mais procurar, elas é que buscavam ávidas a ponta de sua caneta-tinteiro, formando uma nascente onde podia saciar sua sede de poesia e de literatura.

Não mais se aborrecia com as críticas acerbas a suas adoradas palavras. Sabia que elas estavam bem cuidadas  nas páginas de seu caderno de pauta... 


Porto Alegre, 23 de novembro de 2016.


Edu Cezimbra


Don Quijote


Pictograma  "Don Quijote de La Mancha" baseado em gravura da edição cubana do livro de Cervantes.

 

Porto Alegre, 23 de novembro de 2016.

 Foto: Francisco D. Cezimbra

Edu Cezimbra




terça-feira, 22 de novembro de 2016

O Som ao Redor





Olha a música

Como se fosse uma cena

Por força do dito popular 

Não se ouve apenas

Olha só o canto do sabiá

Tem tons de verde da mata

Notas de flor de laranjeira

Esvoaçando pelo ar

Tem cores das rosas

O som ao redor

Pinta de azul o céu

Com pinceladas de sol


Porto Alegre, 22 de novembro.

Edu Cezimbra


segunda-feira, 21 de novembro de 2016

O nascimento da humanidade


Quem diria, nós, seres humanos, evoluímos na marra, obrigados pelas mudanças climáticas imprevisíveis e bruscas há mais de um milhão e meio de anos.

Um tal de Homo erectus assim que deu as caras no planeta já teve que partir atrás de novos campos de caça.

Calculam que na impressionante velocidade de um quilômetro por ano saíram da África e logo depois de quinze mil anos já estavam veraneando na Indonésia.

Mas a viagem não foi um passeio, não. Quase estivemos à beira da extinção. Segundo alguns pesquisadores a espécie humana descende de um grupo pequeno, claro que não tão pequeno quanto nos conta a Bíblia (sempre conservadora)...

Inacreditável como aquele macaco nu conseguiu se virar com poucos recursos tais como a força de um tigre dente-de-sabre ou a agilidade de um de seus muitos 'primos'.

Agora senta que eu vou te contar a grande vantagem evolutiva desse ser tão frágil: cuidar uns dos outros - tem lógica, não?

Fomos sempre muito sociáveis, diferentemente dos chimpanzés...

Por sermos eretos caminhávamos muito e para caçar corríamos mais ainda, até matar a caça  no cansaço...sério! 

Após essa correria (termo que permanece) voltávamos para o acampamento e em volta de uma fogueira cozinhávamos a carne, contando as proezas do dia, catando os piolhos uns dos outros.

Vira a folhinha, pulemos para nossa época, agora...O que temos? Uma mudança climática imprevisível e brusca, igual às condições que obrigaram a espécie humana a evoluir na marra. 

A brutal diferença é que viramos uma espécie sedentária, obesos e isolados uns dos outros, em que pese sermos bilhões de seres humanos.

Não dá para deixar de lembrar dos neandertais, nessa hora H. Tão humanos quantos nós, mas foram extintos há mais de vinte mil anos por não terem conseguido evoluir diante das mudanças climáticas e 'sociais' do seu tempo...


Porto Alegre, 21 de novembro de 2016.

Foto: Divulgação/ Neanderthal Museum

Edu Cezimbra