segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Trem noturno para o interior


"Seriam os joelhos morenos de Maria João ou o perfume do sabonete em seu vestido claro aos quais quero voltar? Ou se trata do desejo - o desejo patético, de sonhos - de voltar àquele ponto da minha vida e tomar um rumo bem diferente do que aquele que fez de mim o que sou agora?"
As reflexões originais e intensas do médico português Amadeu de Almeida Prado fazem o professor de línguas clássicas Raimund Gregorius largar uma vida regrada e monótona em Berna para pegar o "trem noturno para Lisboa", título do romance de Pascal Mercier , pseudônimo do filósofo Peter Bieri. 

A fuga de 'Mundus' também parte do encontro com uma misteriosa mulher, cuja 'língua materna' é o nosso português (ou melhor, o 'purtugueis' de Portugal).

Foi esse encontro 'ao acaso' com uma mulher estrangeira em Berna que fez Gregorius dar a guinada brusca em sua insípida vida e partir para Lisboa em busca de algo indefinido para ele.

Não por acaso escolhi a citação que conta de uma outra mulher, na época, a menina Maria João,'de joelhos morenos e vestido recendendo a sabonete'.

Chamo a atenção aí para a importãncia das mulheres como catalizadoras de mudanças nos homens, as musas inspiradoras, ou mesmo a 'anima' arquetípica descrita por Jung.

O filólogo 'Mundus' lê as palavras em português encantado com a beleza das mesmas:

" - Um ourives das palavras, não é belo esse título?
- Calmo e elegante. Como prata fosca. Por favor, pode repetí-lo em português?
O livreiro repetiu as palavras. Era evidente que , para além das palavras, ele se deliciava com a sua sonoridade aveluda"
Afinal, o que fez mesmo Raimund Gregorius mudar tão repentinamente?

Arriscaria que essa expressão "pegar o trem noturno para Lisboa", já consagrada como figura de linguagem para uma mudança radical de vida só acontece porque em 'Mundus' - e em cada um de nós - existe um 'fruto do carvalho', expressão cunhada pelo psicólogo James Hillman no seu livro 'O Código do Ser': quando mais cedo ou mais tarde escutamos a voz interior da alma, nosso daimon, e nos tornamos o que sempre fomos.


Porto Alegre, 28 de novembro de 2016.

Edu Cezimbra