quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O semeador de palavras



De tanto ouvir "tem que falar menos e agir mais" optou por ficar em silêncio. 

Começou a escrever. Não com a pretensão de se tornar escritor, nada disso...

É que, como se tornara silencioso, precisava de algo para não esquecer as palavras.

Lá no fundo, bem no fundo, ficava muito aborrecido quando ouvia essa condenação absoluta das palavras.

Sempre sentira muito prazer em lecionar oratória. Com o passar inexorável do tempo percebeu que suas aulas eram mesmo palavras jogadas ao vento, quando não flechas envenenadas...

Pensou que melhor que jogar palavras fora seria plantá-las nas páginas em branco de um caderno.

Não com a intenção de publicá-las em livros. Mais com o intuito de guardar, de armazenar as palavras, feito um banco de sementes aptas a germinar ideias.

Além do mais sempre gostara de escrever por escrever mesmo... Obtinha um prazer secreto em semear uma palavra na folha e ver que ela puxava mais palavras formando frases antes impensadas.

Aí, com pouco esforço, era como se abrisse uma fonte de onde jorravam abundantes muitas palavras novas.

Não precisava mais procurar, elas é que buscavam ávidas a ponta de sua caneta-tinteiro, formando uma nascente onde podia saciar sua sede de poesia e de literatura.

Não mais se aborrecia com as críticas acerbas a suas adoradas palavras. Sabia que elas estavam bem cuidadas  nas páginas de seu caderno de pauta... 


Porto Alegre, 23 de novembro de 2016.


Edu Cezimbra