quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Pai, afasta de mim esse cálice


Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada pra a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa


'Feito na calada da noite' é coisa de malfeitores. Mas o que fazer depois do malfeito? O que dizer se não há mais nada a fazer? 

Na calada da noite eu me dano se não falo nada ou me calo por medo.

Pois é na calada da noite que se ouve melhor...

Foi feito na calada da noite mas fez um barulho e tanto.

Quando é 'fato consumado na calada da noite' nada melhor que seja 'fogo-fátuo'.

Mas não confunda fogo-fátuo com fato consumado. 

O que Chico Buarque denuncia com sua música 'Cálice' é que muitos que não calaram foram presos, torturados e mortos pela ditadura militar.

Em muitos casos foi preciso calar para não ir para o calabouço.

Mas não confunda calabouço com 'cala-boca' como fazem as ditaduras:




Porto Alegre, 30 de novembro de 2016.

Foto: Mídia Ninja

Edu Cezimbra