terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Caminhante,ou o caso do Gigante desaparecido (para Eduardo Sejanes Cezimbra)




 
Caminhante,não há caminho...
se faz caminho ao andar! (Antonio Machado)
 
Patricia Mich (dedicado ao amigo Eduardo Sejanes Cezimbra)
 
O sujeito andava pela trilha, trilha esta sua conhecida,pois a percorria diariamente, em busca de paz e de inspiração para a vida.
Acordava sempre muito cedo,antes do restante da família,tomava rapidamente o café e saía em direção ao passeio de todos os dias.
Ao longo do caminho,saudava com familiaridade as árvores e demais plantas,por sabê-las de cor.
Com calma,podia andar por entre a relva e as pedras,sem tropeçar,pois os contornos dos trajetos já lhe eram confortáveis,a ponto de,muitas vezes,até pisar nos mesmos lugares de antes.
Porém,um dia,percebeu que algo não estava no lugar.
Não sabia ao certo o que era...talvez um cheiro,talvez um som,alguma coisa parecia mesmo sair do "tom de sempre".
Mas,o que seria?
Saira na mesma hora de sempre,usara do mesmo ritmo nos passos,até reparou que pisara o mesmo galho quebrado de ontem.
Então,o que havia de dissonante naquela sua- tão costumeiramente harmônica -escapadela?
Checou novamente as imediações, num giro periscópico e rápido, nada percebendo de diferente a sua volta.
Apesar de ligeiro desconforto,retomou os passos,na direção de sempre.
Ao fim do passeio,como de hábito,ajoelhou-se junto ao riacho cristalino,para beber água,antes de iniciar a volta para casa.
Foi quando percebeu ligeiro vulto,que, passando sorrateiramente por trás dele, deu a volta em uma mangueira próxima e sumiu.
Intrigado,deu a volta na árvore,para ver o que encontrava.
Viu um ser esquisito, sentado numa das grossas raízes da planta,comendo ,sem muita cerimônia,suculenta manga.
Um leve temor se apoderou do sujeito, chocado e um tanto temeroso com o que via.
Sem dúvida, não esperava por aquilo.
O estranho ser era de um verde aspargo misturado a um amarelo manga,orelhas compridas e pernas finas.Comia a fruta, refestelado no tronco e nas raízes da velha mangueira,como se estivesse sentado em sua própria sala de jantar...
Com um pouco de medo,nosso caminhante arriscou ,cambaleando na voz,uma pergunta:
- Quem é você?
Ao que o estranho ente,parando imediatamente de mastigar a fruta, e limpando a fina boca vermelha com as mãos delgadas,respondeu:
-Na verdade, já nos conhecemos há tempos...mas pelo que vejo, você não se lembra mais de mim.
Costumávamos andar,nós dois,juntos,por aqui,nesta mesma trilha.Até que ,um dia,sem que eu entendesse "por que", nós nos perdemos de vista.Desde então nunca mais havia lhe visto,até agora...
Sem se lembrar de nada,o caminheiro deu de ombros,negaceou a cabeça e voltou a perguntar:
-Eu não entendo....quem é você?
-O minúsculo ser parecia menor do que na primeira vez que botara os olhos nele.O anãozinho,agora um pouco mais verde,jogou ,impaciente, o caroço da manga para trás e limpou rapidamente as frágeis mãozinhas na roupa mesmo. Suspirou profundamente e,como que buscando suas últimas energias, respondeu:
-Meu nome é curiosidade.
Algumas pessoas me chamam de espírito de aventura,de frio na barriga,entre outros nomes.
Eu nasci grudado a você e crescemos juntos.Éramos companheiros inseparáveis,até que um dia,você se esqueceu completamente de mim.
-Isso acontece mais vezes do que eu poderia desejar...-continuou o pequenino,ainda mais pequeno do que antes.
-Você me vê como um duende verde do tamanho de um camundongo agora-continuou- mas na última vez que eu pus meus olhos em você, eu era um gigante,colorido,musculoso e forte."
Com alguma dificuldade,a criatura continuou:
-Juntos,desbravamos muitas paisagens e experimentamos muitas emoções.
Naquela época,nenhum dia era igual ao outro e era emocionante sair de casa sem saber o que iria acontecer.
A criatura deu uma profunda sorvida no ar ,que parecia rarear por um breve instante, e disse:
-Com o passar do tempo,no entanto,você parou de crescer e eu fiquei muito maior.Destoávamos e discordávamos o tempo todo, e essa sensação de desconforto,que você voltou a sentir em muito menor escala hoje cedo,nos afastou definitivamente...
-Hoje, pedi ao Criador que me permitisse arriscar essa rápida visita,e,devo dizer,com a rapidez com que estou diminuindo,e perdendo a cor, em segundos não estarei mais aqui e nunca mais poderemos nos encontrar de novo...
-Tenho a permissão de lhe dirigir uma últimas palavras.Não há tempo para muitas,então serei breve:Você nunca deveria ter aceitado o conforto do caminho fácil e conhecido.Isso fez de você alguém acomodado,conformado e incapaz de influenciar a paisagem em volta.Pisar nos mesmos lugares,fez você andar em círculos,e então,você deixou de ver e de ouvir os sons e as paisagens novas que,em tempos áureos,eram verdadeiros tesouros a serem caçados por nós.
Sem tempo para mais nada,o ser, ainda menor e mais sem cor do que quando chegara,entregou ao sujeito uma noz,que continha em seu interior algumas sementes,e desapareceu de vez.
Ainda deu pra ouvir um sussurro,que dizia,leve como uma brisa...."-plante"...
Intrigado,o homem enfiou a noz na terra preta e fofa,bem na curva da estrada.
E voltou para casa.
Não conseguiu dormir mais aquele sono profundo e tranquilo de tantos anos.Quando o sol chegou,já o encontrou acordado,aflito,profundamente incomodado.Havia nele uma energia diferente.
Vestiu-se de qualquer jeito,saiu sem tomar café,tinha uma pressa que deixava tudo mais interessante e mais emocionante:não sabia o que o esperava,e isso era muuuitoooo bom!
Quando chegou no lugar de sempre,percebeu que estava perdido,e que não reconhecia um fiapo sequer de grama.Seu coração estava disparado,as mãos suavam,e o estômago dava voltas cabriolantes.
Estava feliz!
Tinha um enorme número de trilhas a percorrer,diante dele havia inúmeros novos caminhos,todos emaranhados,sobrepostos,esperando que fossem desfeitos,desbravados,mapeados.
Seu nariz fora invadido por aromas que nem sabia ser possível de existirem,sons estranhos e misteriosos abarrotavam seus ouvidos.
Tanta coisa para investigar e para descobrir certamente tomaria todo o seu tempo e preencheria todos os vazios.
Pulou feito uma gazela, virou aleatoriamente por uma alameda nunca antes vista,e desapareceu em meio à paisagem.
De uma forma muito feliz,não estava mais sozinho.Na primeira passada que deu para abrir uma nova vereda,deparou-se com um enorme e colorido gigante.
Reconhecendo-o como a um velho amigo,abraçou-o carinhosamente,pedindo desculpas por ter sumido por tanto tempo:
-Meu caro Mistério,me desculpe,e bem-vindo de volta!!
E sumiram novamente,juntos e felizes,em busca de novas aventuras.
 
Porto Alegre, dezembro de 2015.