terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Memórias da Água



Água que deságua em açudes... Vem de riachos de águas frias e límpidas que brotam de fontes do fundo da terra. Andam de mãos dadas, a água e a terra, feito duas crianças a brincar com barro em açudes com fundo barrento que fazem os pés afundarem como se pisassem em neve nova ou areia movediça.

Açudes que retém a água para refrescarem o ar, saciar a sede de animais e fazer a festa das crianças em dias quentes. 

Quem não lembra o mergulho afoito após uma longa caminhada por uma trilha sob sol escaldante ou uma “pelada” nas areias quentes da praia? O mergulho na água fria provoca um arrepio que depois dá lugar a carícias na pele e cabelos passando de imediato a sensação de calor.

As águas são crianças a brincar com a terra... Vão correndo por leitos rochosos, abrem caminho em meio aos barrancos, vales e planícies,formam cachoeiras, corredeiras entre pedras, sempre acompanhadas de peixes, matas, pássaros e chuvas, claro!

Crianças adoram brincar na água, seja onde for: em uma valeta, canal de irrigação, piscina, açude, rio, lagoa ou mar. Esta ligação com as águas é muito forte entre os nossos indígenas (o hábito do banho diário), aprender a nadar, mergulhar desde muito cedo vem junto com a pescaria tão peculiar aos habitantes ribeirinhos.

Nascer dentro d'água é nascer sorrindo, acolhido pelas águas da vida após nove meses envolto por ela. Um recém-nascido naturalmente mergulha e nada em uma piscina como se pode ver em documentários em que as mães soltam os bebês dentro da água.

No entanto, muitos tem medo da água (não me refiro ao personagem Cascão do Maurício de Souza) pelo risco de afogamento. Este temor também tem a ver com nossas mais profundas memórias de águas escuras e geladas em que iaras, botos cor-de-rosa espreitam os incautos ribeirinhos que subitamente desaparecem sem deixar rastros.

Os alagamentos, inundações e enchentes também deixam marcas no inconsciente coletivo, talvez pelo simbolismo das inundações psíquicas em que a mente é tragada pelos abismos da alma, quem sabe...

O poeta português Fernando Pessoa canta que “navegar é preciso, viver não é preciso”... Sobre as águas navegamos em jangadas, balsas, botes, veleiros, enfim, em tudo que nos permita flutuar ao balanço das águas. E o barco é um símbolo de nós mesmos na travessia de um oceano em que ocorrem, sem aviso, tsunamis, calmarias, tempestades em que é preciso navegar nas águas do vir a ser. 

Edu Cezimbra, primavera de 2015