quarta-feira, 19 de abril de 2017

A presença do maligno



"Quem sou eu para para emitir juízos sobre as tramas do maligno, especialmente", acrescentou, parecendo querer insistir nesse ponto, "em um caso em que os que tenham dado início à inquisição, os bispos, os magistrados civis e todo o povo, talvez até os próprios acusados, desejavam verdadeiramente sentir a presença do demônio? Bem, talvez a única prova verdadeira da presença do diabo seja a intensidade com que todos, naquele momento, desejam sabê-lo em ação..."

Umberto Eco, em seu livro "O Nome da Rosa" coloca essa fala na boca do arguto Frei Guilherme de Bakerville para desviar a conversa com o abade obcecado pelo demônio.

O romance transcorre em plena Idade Média, século XIV, em mosteiro no norte da Itália e transmite todo o espírito dessa época com muitas passagens como a citada acima.

O que talvez surpreendesse o escritor é o quanto esse tipo de visão de mundo persiste em pleno século XXI, ao menos no Brasil.

Não pretendo tecer uma crítica a esse tipo de crença mas sim mostrar que, apesar de todas as transformações que o mundo passou, desde a Idade Média, ela persiste com a mesma intensidade.

Frei Guilherme ao tentar encerrar a especulação em torno do demônio fornece uma pista e tanto para entendermos essa permanência do "chifrudo".

É a intensidade com que todos desejam saber da ação do diabo que o mantém presente ainda hoje em dia.

Vou mais longe: uma religião persiste porque há quem intensamente acredite nela...


Porto Alegre, 19 de abril de 2017.

Foto: cena de "O Nome da Rosa"

Edu Cezimbra