sexta-feira, 26 de maio de 2017

Dois pesos, duas medidas


Dois mercadores discutiam uma transação em um dos raros poços do deserto.

- Nassif, por Alá, essa minha especiaria vem da Índia, vale muito!

- Salim, pelo Profeta, a minha seda vem da Pérsia, e vale ouro!

- Assim seja, mas de que adiantam sedas e ouro se a carne é podre...

- Maktub... a carne de nada valerá se não for vendida para um banquete de paxás.

- É impossível comparar a pimenta com a seda, Salim...

- Um punhado da minha pimenta vale mais do que uma arroba da tua seda!

-   Qual nada, seria preciso espalhar pimenta por todo o Saara para chegar perto do valor da minha seda!

Nisso, o caravaneiro-chefe chega desesperado à tenda onde negociavam os dois mercadores:

- O poço secou, que Alá nos proteja, vamos morrer de sede se não sacrificarmos os seus camelos!

Um mulá em peregrinação para Meca, que escutava a discussão, comenta em voz alta:

- Quando há dois pesos e duas medidas, o fiel da balança é o camelo...


Porto Alegre, 26 de maio de 2017.

Foto: Viajantes Aprendizes

Edu Cezimbra