quinta-feira, 11 de maio de 2017

Veridiana e Hermes



Em um país - não muito distante daqui -, Veridiana estava muito só diante de tantas deturpações em nome de sua vocação.

Veridiana trabalhava como jornalista em uma importante revista semanal, mas ficou um bom tempo desempregada.

A revista tinha demitido vários de seus colegas e ela foi junto, preocupada com seu futuro profissional, embora com certo alívio...

A desculpa foi contenção de custos, entretanto Veridiana sabia que o novo editor não gostara nada de sua posição independente, sempre buscando a verdade dos fatos.

Hermes era seu nome. Tinha atuado no exterior e era considerado um editor moderno, pragmático, com visão do mercado.

Foi contratado para mudar radicalmente a proposta editorial da revista.

Tinha o perfil perfeito para tanto. Rápido, ardiloso, sabia forjar uma notícia como ninguém.

Chamou Veridiana em sua sala redecorada no estilo art déco e foi logo elogiando o seu "excelente" trabalho.

- Minha cara - disse Hermes, em tom melífluo -, precisamos muito de ti nessa nova fase da revista. Vamos investir em política e para isso conto com teu talento para as matérias que pretendo publicar.

- E sobre o que seriam essas matérias, chefe?- perguntou Veridiana, 
interessada.

Hermes aproxima-se, põe a mão no ombro de Veridiana, e lhe sussurra no ouvido: - são matérias que requerem muita imaginação, capacidade criativa e pragmatismo, entende...

- Hermes, isso está mais para crônica do que para reportagem investigativa- retrucou Veridiana, tirando o corpo fora.

- Veja bem, como te disse, tem que ser prag-má-tica...

Veridiana era jovem mas não era inexperiente. Tinha faro para perceber uma mentira, graças à sua função de repórter investigativa. Entendeu rapidamente o que podia esperar dali para frente.

A linguagem rebuscada de Hermes escondia suas intenções de atacar com todas as armas,  sistematicamente, o governo eleito usando de mentiras, calúnias e difamações contra os seus membros, o partido e movimentos sociais que os apoiavam.

Veridiana ainda suportou por alguns meses o assédio moral do editor, que a cada dia lhe cobrava matérias inverídicas ou tendenciosas, censurando regularmente suas tentativas de burlar a linha editorial da revista.

Atualmente, Veridiana mantém um blog muito acessado por pessoas interessadas em um jornalismo que respeite a inteligência dos leitores.

Como falado no início dessa matéria, Veridiana e seus poucos leitores não se encontram muito confortáveis nesse país não muito distante daqui.


Porto Alegre, 11 de maio de 2017.

Foto: cartaz do filme "O Mercado de Notícias"

Edu Cezimbra