quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Humano demasiado humano


"O mundo, na hora presente, está cheio de grupos raivosos autocentralizados, cada qual incapaz de considerar a vida humana como um todo, cada qual preferindo destruir a civilização a ceder uma polegada. Para essa estreiteza de vista, não há instrução técnica que possa fornecer um antídoto, na dose em que o exige a psicologia humana, este deve ser encontrado na história, na biologia, na astronomia e em todos os estudos que, sem destruírem o auto-respeito, convençam o indivíduo de contemplar-se em sua própria perspectiva. 
 Bertrand Russel, escreveu o "O Elogio do Lazer" em 1957, visando, no parágrafo acima, a "Guerra Fria".

O caro e raro leitor há de concordar que, se eu não desse a devida referência, poderia imaginar que esse parágrafo citado foi escrito hoje.

"Grupos raivosos autocentralizados", na hora presente, são o que mais temos. 

Fico a me perguntar se Russel tinha noção da "longevidade" desse diagnóstico social catastrófico.

Pela sequência de seu pensamento penso que não...

Atualmente, a "instrução técnica" impera, sempre visando a competitividade.

A perspectiva do indivíduo nessas condições é de "uma estreiteza de vista" alarmante.

Mais adiante, Russel insiste neste ponto:
"O que é necessário não é este ou aquele fragmento de informação específica, mas o conhecimeto que inspira uma concepção dos objetivos da vida como um todo;" (...)
Sabemos que em momentos de crise econômica, social e política os tais "grupos raivosos" tendem a proliferar, sempre buscando um "füher", um líder paternal, que resolveria todos os problemas da sociedade.

Impressiona que adolescentes, tão avessos à autoridade do pai, são os que mais caiam na tentação autoritária e patriarcal na política brasileira.

Ainda hoje, soube que Trump retirou os EUA da UNESCO devido à participação da Palestina nesse organismo da ONU.

Isso diz muito sobre o grau de dificuldade para superarmos a fragmentação da "vida humana" imposta por políticas segregacionistas. 

A ciência, cultura e educação que a UNESCO promove globalmente é um antídoto a essas concepções estreitas, preconceituosas, racistas e xenófobas.

Bertrand Russel conclui o parágrafo com essa afirmação categórica, que nos serve como um fecho de ouro: 
"É das concepções mais amplas, combinadas com a emoção impessoal, que a sabedoria brota mais espontaneamente."

Porto Alegre, 12 de outubro de 2017. 

Imagem: depositphotos

Edu Cezimbra