terça-feira, 17 de outubro de 2017

Por quem os sinos dobram



"Toda dor pode ser suportada se sobre ela puder ser contada uma história", lembra-nos Hannah Arendt.

A filósofa Hannah Arendt fala "de cátedra" dessa imensa dor que se abateu sobre os judeus.

 As tragédias e os dramas, não por acaso, são numerosos na literatura, no teatro e no cinema.

Desde as tragédias gregas os espectadores fazem uma catarse pessoal e coletiva, durante uma sessão de teatro ou cinema.

Nesses casos, o que mobiliza as emoções são a empatia e a identificação com os personagens do drama.

Lamentavelmente, nem sempre é assim, como podemos ver nos programas policialescos e sensacionalistas em que a tragédia alheia vira espetáculo diário e naturalizado.

Nesses programas o que acontece é uma exacerbação da violência social e o sentimento que impera é o gosto pelo sangue derramado - pelos outros...

A escala dessa dor coletiva também é afetada pela região do mundo onde acontecem tragédias.

Um atentado terrorista na França comove o mundo todo, enquanto na Somália gera pouca comoção e solidariedade.

A morte de uma pessoa em bairro de classe média, no Brasil, gera maior revolta que uma chacina na favela.

Houve outros extermínios no mundo, tais como os dos armênios, dos curdos, de povos africanos e indígenas que não tiveram nenhuma repercussão mundial.

Caro e raro leitor,  deixo aqui uma pergunta: consegues sentir a dor de todas essas pessoas que sofreram tanto e não tiveram suas histórias contadas, como prescreve Hannah Arendt?

John Donne, poeta e pregador anglicano, sentiu: "a morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti". 

Porto Alegre, 17 de outubro de 2017.

Foto: Guernica, Pablo Picasso

Edu Cezimbra