terça-feira, 4 de outubro de 2016

Limpeza


E aí, limpeza?...Até poderia ser a saudação de certo candidato a prefeito.

Quando falam em 'limpar um pátio' pode esperar desmatamento, queimada e terraplanagem seguidas de todas as consequências perversas: erosão do solo, impermeabilização, gramados e tudo o quem vem de roldão.

'Clear' grita o soldado pisando em cadáveres. Chegou-se ao ponto de falar em 'limpeza étnica' na maior frieza...

Assim parecem nossas praças, parques, ruas e quintais depois da passagem de uma 'equipe de limpeza' (ou seria um pelotão?): um monte de cadáveres de árvores abatidas friamente, com montes de folhas e flores cortadas em nome da 'limpeza'.

Não bastasse toda essa devastação da biodiversidade, essa 'limpeza' vem acompanhada de calçadas de concreto, asfaltamento de ruas de paralelepípedos, estacionamentos para carros particulares e consequentemente muitas ilhas de calor  causadas pela falta de sombra das árvores e do asfalto e do concreto nas cidades.

O ruído ensurdecedor das motosserras e a fumaça das queimadas são a trilha sonora e o pano de fundo destas cenas de guerra.

De onde vem essa 'mania nacional', afinal? Não vem de nossos indígenas...

A história dá a primeira pista desse crime contra a natureza e a vida.

Quem viaja pelos estados brasileiros, primeiramente ocupados pelos colonizadores portugueses, pode avaliar o tamanho desse desastre ambiental que acabou com mais de noventa por cento da Mata Atlântica.

Toda essa devastação ambiental e genocídio indígena em nome da civilização européia, que associava a floresta ao 'inferno verde' com seus demônios e animais perigosos.

Por isso, a primeira tarefa dos colonizadores era 'limpar' o mato e colocar em seu lugar uma capela com casario à sua volta, pintar um cartão e enviar para a Europa a fim de convencer potenciais interessados em migrar de que o Brasil era um 'país civilizado'. 

Ainda hoje, as pessoas 'normais' tem mais horror de um terreno baldio com árvores, arbustos e 'ervas daninhas' do que de um terreno entulhado com embalagens, sacos e garrafas pláticas.

E disso vem a segunda pista para solucionar este crime hediondo: é o'preço do progresso' dizem os maníacos da limpeza...


Porto Alegre, 04 de outubro de 2016.

Edu Cezimbra