sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Confissões de um (des)obediente




Há quem fale em desobediência civil, como Thoreau e Gandhi, obedecendo suas consciências.

Fala-se em 'objeção de consciência' para se negar a matar gente sob licença militar, caso de Muhammad Ali versus 'o povo' do EUA.

Há quem fale em obediência, hierarquia, disciplina, dever, moral e cívica, ordem e progresso, sem nenhuma 'objeção de consciência'.

Mas há um caso pouco falado que vou te contar: o do (des)obediente. Conheço bem, porque sou eu...

Sempre fui considerado 'um bom menino', 'educadinho', estudioso, trabalhador, enfim, obediente. 

Por isso, nunca tive nem criei maiores dificuldade na minha já distante infância, o que me assegurava poucos castigos físicos; convenhamos, já é uma grande vantagem existencial.

Aqui para nós, vou te contar, eram muito chatas tantas 'obrigações' familiares, escolares, religiosas e 'trabalhistas', esta cumprida diariamente no bolicho do meu pai.

E como te contei antes, obedecia...Todas as ordens e 'obrigações', desobedecendo minha vontade, que era a de estar nos pátios empoleirado em árvores, correndo com os amigos nas ruas em volta de nossa quadra, sem esquecer o imperdível 'jogar bola' no campinho ao lado de casa.

É dessa desobediência a si-mesmo que me refiro...

Tinha outros amigos que eram desobedientes com os pais, nas escolas, com os mais velhos, sofrendo muitas recriminações e, sim, discriminações...

Acho que vem daí esse dois sentimentos: culpa e arrependimento associados "ao porque sempre fui tão obediente"...

Confesso que haviam uns raros momentos de desobediência filial, por exemplo quando ao invés de voltar direto para casa depois da escola passava no cinema na expectativa de que o porteiro amigo deixasse entrar e ver o final de um filme da 'sessão das quatro'.

Outra desobediência que me dava grande prazer era a 'trabalhista'. Pegava um adiantamento do salário', fazia um 'vale' às escondidas de meu pai e saía correndo para a banca de revistas na praça para comprar 'revistinhas'.

Deu na vista, pela pilha de gibis acumulados, e para resolver os 'desfalques' meus pais fizeram eu vender as coleções de gibis a 'preço de banana' (para alegria dos colecionadores da praça) e instituiram uma 'mesada' que era paga no domingo e dava para o ingresso do 'matinê da uma' e mais uns drops ou chicletinho. 

Aliás, duas desobediências que pratico até hoje, cinema argentino e pernambucano e revistas do estilo 'Caros Amigos', 'Fórum', 'Cult', entre outras, algumas já extintas como "Atenção' e 'Reportagem'.

Isso tudo para te contar, caro leitor, que, agora sim, obedeço a mim mesmo, escrevendo com prazer estas 'mal traçadas linhas', enquanto pego um solzinho, cercado pelos cachorros e gatos, "ouvindo pássaros cantar, cantar"!!!


 Porto Alegre, 23 de setembro de 2016.

Edu Cezimbra