sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Diário de um exílio voluntário


"O desafio da modernidade é viver sem ilusões, sem se tornar desiludido." Gramsci.

Fria manhã ensolarada.

Sentado no pátio ( "fazendo a fotossíntese", como diz um amigo), tomo meu mate quente, que me aquece por dentro, e enquanto o sol me aquece por fora escrevo este diário de um 'auto-exilado'.

Hoje de manhã fiquei "meio que sem vontade" de abrir o computador e acessar as notícias, especialmente as políticas e econômicas. Há tempo que já não escuto as rádios e assisto TVs comerciais, mas agora essa avalanche de medidas neoliberais velhas, acusações infundadas contra presidentes do país, e tantas iniquidades, tornaram o ambiente virtual tão denso e pesado quanto a 'grande' mídia.

Escrevi no facebook dias atrás: 

Honestamente, nessa quadra da vida, quase 60 anos, mais de 20 anos amargando a ditadura militar, preferiria estar criticando a Dilma enquanto Presidenta do que a defendendo fora de um governo eleito democraticamente, se é que me entendem...
Esse inverno que retarda a primavera... 

Primavera que mesmo assim emite seus sinais de vida na brotação de folhas verdes claro nas árvores, na floração do abacateiro (vem um desejo de esquecimento). Ao mesmo tempo os sabiás e os bem-te-vis já começaram a entoar seus cantos de amor (serve de consolo).

Uma formiguinha carrega um pedaço de folha verde três vezes maior que ela, eita formiguinha forte!

Como disse e reafirmo: para quem  já passou pelo tacão de uma ditadura militar e após teve de aturar uma 'Nova República' com os Sarney, Collor, Itamar e FHC, com todas as suas medidas neoliberais desastrosas para o trabalhador brasileiro, assistir a repetição disso é como botar o dedo em uma ferida que se considerava cicatrizada, mas não estava.

Sinto que é muito bom ter um lugar no meio do mato pra me esconder, fugir desse clima opressivo da política e da metrópole, da polícia e da poluição, da canalhice e da corrupção.

Esta 'retirada estratégica', sei bem, é uma fuga. Fuga instintiva de tanta violência. Ajuda também a me concentrar para escrever e escrever ajuda a me concentrar. 

Respiro um ar puro e perfumado de água e pólen e deixo "a mente quieta, a espinha ereta" (grande Walter Franco!) para não adoecer. 

É que vejo pessoas próximas adoecendo por tristeza com a situação brasileira.

Algumas, mais calejadas pela ditadura militar, mantém um sorriso nos lábios e um brilho do olhar apesar de tudo. Admiro esse tipo de pessoa.

Um latido alto do cachorro grande do vizinho quebra a harmonia da natureza, como se ameaça houvesse, imagine...

No dia da farsa do 'impeachment' de Dilma escrevi um pequeno poema que exprime o meu estado de espírito e com o qual concluo esse diálogo interior com a natureza e contigo, caro leitor: 

Podem arrancar todas as flores do jardim, mas a primavera virá com a boca cheia de sementes.

Porto Alegre, 16 de setembro de 2016.

Foto e Arte: Mario Pepo Santarem

Edu Cezimbra