segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Repouso do Guerreiro



Estou só,só. Sozinho no mundo.
- Mas eu o amo, Renaud. Você não está só.
- Uma coisa nada tem a ver com a outra, evidentemente. Estou só.
- Ah, se ao menos você pudesse gostar um pouco de você, não estaria tão só, garanto.

Christiane Rochefort escreve este 'diálogo' no romance 'O Repouso do Guerreiro', em que narra a história de Geneviéve, uma jovem estudante de Direito, em Paris, e de Renaud, um alcóolatra inveterado.

Jean Renaud Sarti é um suicida frustrado por Geneviève Le Theil.

A semelhança do nome com o do filósofo existencialista Jean-Paul Sartre diz muito do personagem: Sarti é uma caricatura intencionalmente grotesta do filósofo da falta de sentido da vida.
  
A autora dita o tom confessional do romance através de Geneviève, que não é nenhuma Simone de Beauvoir..

Ao contrário do que quer uma leitura superficial  a história não tem como tema principal a submissão e o alcoolismo.

É a falta de sentido da vida o que salta aos olhos do leitor mais atento.

A submissão de Geneviève é uma metáfora poderosa da condição da alma humana em geral, submetida aos sentidos e ao impulso sexual irrefreável.

A opressão de Sarti pode ser vista analogamente com a negação dos sentimentos de uma maneira extremadamente niilista.

Fatalmente, como nos conta Geneviève, a angústia existencial de ambos faz com que se tornem dependentes emocionalmente um do outro.

No caso de Geneviève, em nome do amor; no caso de Sarti, contra o amor, mais, como lembrado por ela: de amor-próprio.

Por isso a trama gira (com requinte intelectual) em torno dessa destruição consentida por ambos, cada qual a seu modo, mas contra os seus mundos.

Renaud justica seu comportamento sórdido e o seu alcoolismo com a bomba-atômica.

Geneviève alega que o amor compensa toda a humilhação tendo como vício o sexo desenfreado que Renaud lhe proporciona.

Ao fim e ao cabo, ambos mutuamente dependentes, o que me faz perguntar: e não tendo o sexo e o alcóol, quais seriam as suas drogas para se suportarem?


Porto Alegre, 26 de setembro de 2016.

Edu Cezimbra