domingo, 10 de abril de 2016

Ionesco e a falta de amor


O que nos falta, afinal, para escaparmos do aniquilamento coletivo de que nos fala Ionesco no excerto acima? 

Se não estou enganado foi Gandhi quem disse: "olho por olho, dente por dente e todos acabarão cegos e desdentados"...

Ionesco alerta para esta condição humana moderna: "Em realidade, está claro que cada homem detesta a si mesmo em outro". 

E, se pergunta: " O que podemos fazer se tudo fracassou? Quase não nos amamos.  Amar ao próximo como a si mesmo, é odiá-lo."

Ionesco escreveu estas palavras tão contundentes para a Revista Continente, veículo de manifestação política  de intelectuais dissidentes do regime soviético,  em fins de julho de 1974 . 

Chamou minha atenção sua maneira de falar de amor: "Tive que vencer uma autocensura para escrever a palavra amor.  Falar de amor, de amizade, na França, de religião também, ou de humanismo, é atrair para si o ridículo, as zombarias."

Em 1979, já me questionava: "Por que o medo pela amizade? 

Por que a prevenção contra as pessoas que procuram se aproximar de outros?

Não entendo por que tanto medo em se aproximar do vizinho e lhe estender a mão num gesto de fraterna solidariedade.

 Onde foram parar os princípios cristãos da bondade, do amor e da amizade?"

Que eu me lembre não tinha esta preocupação do ridículo ao escrever a palavra amor, com o devido desconto de ter apenas 19 anos, ter muito amor para dar e ainda não ter lido Ionesco...

Porto Alegre, 10 de abril de 2016.

Edu Cezimbra