terça-feira, 19 de abril de 2016

Steinbeck e o Sucesso



John Steinbeck, autor do romance "A Rua das Ilusões Perdidas", considerado por muitos críticos como a sua obra-prima, faz o personagem Doc, biólogo, comentar sobre Mack e seus amigos vagabundos, aos quais ele vê de seu laboratório, sentados no alto de uma colina.


Doc disse:
 - Olhe só para eles. Acho que são os verdadeiros filósofos. Mack e os rapazes sabem tudo o que já aconteceu no mundo e provavelmente tudo o que acontecerá. Creio que sobrevivem neste mundo em particular melhor do que as outras pessoas. Mostram-se relaxados  numa época em que as pessoas se consomem de ambição, nervosismo e cobiça. Todos os nossos homens supostamente bem-sucedidos são doentes com estômagos ruins e almas piores.Mas Mack e os rapazes são saudáveis e extremamente puros. Podem fazer tudo o que querem. Podem satisfazer seus apetites sem os chamarem de qualquer outra coisa.

O companheiro de copo de Doc, no momento, é Richard Frost, que declara:
- Acho que eles são iguais a todos os demais. A única diferença é que não tem dinheiro. 
- Mas poderiam ter. Sempre poderiam estragar suas vidas para ganhar dinheiro. Mack possui qualidades de gênio. São todos muito espertos, quando querem alguma coisa. Mas conhecem bem demais a natureza das coisas para querê-las desesperadamente.
Doc insiste em sua tese e lança como prova a indiferença do grupo em relação ao desfile de 4 de julho. E aposta umas cervejas de que eles não virarão a cabeça para assistir a parada.

- Não existe o homem que seja capaz de resistir a uma parada - afirmou Richard Frost.

Aposta feita. Doc pondera:

- Sempre me pareceu muito estranho.  As coisas que admiramos nos homens, bondade e generosidade, franqueza, honestidade, compreensão e sentimento são os elementos do fracasso em nosso sistema. E as características que detestamos, astúcia, ganância, cobiça, mesquinharia e egoísmo, são os fatores do sucesso. Enquanto os homens admiram as qualidades que citei, adoram o resultado das outras características.

Acho que não precisa contar quem ganhou a aposta, parece óbvio. O que me tocou muito nestes parágrafos é o quão antigo e recorrente (arquetípico) este paradoxo do sucesso.

Talvez ajude a entender porque Don Pepe Mujica, político uruguaio, tenha tanta receptividade e repercussão mundiais, quando a maioria dos seus colegas são tão criticados.


Porto Alegre, 19 de abril de 2016.

Edu Cezimbra