segunda-feira, 18 de abril de 2016

Paraguaduras, o País Sem Futuro



Paraguaduras é um país com os olhos e os dois pés fincados no passado.

Convictamente zeloso de seu passado, alardeado como "País Sem Futuro".

Um repórter estrangeiro que lá chegasse estranharia muito esta pretensão orgulhosa de manter tudo como "dantes no quartel de Abrantes".

O que faz de Paraguaduras um país que é motivo de chacota no mundo civilizado e de preocupação entre os países vizinhos.

Sempre que um paraguadurenho viaja para estes países vizinhos logo os nativos avisam:" cuidado, é paraguadurenho".

Já estão sabendo de seus modos sinuosos, sempre pronto para dar um jeitinho e se preciso um golpe baixo mesmo.

Chama a atenção de seus visitantes  o total desinteresse pelo processo civilizatório cujo arremedo é "para inglês ver".

O passado em Paraguaduras acontece em prédios de arquitetura arrojada, largas avenidas sempre congestionadas e muita devastação da natureza. Paradoxal, não? Aparentemente. Pois ao conhecer mais a fundo a mentalidade de sua elite dirigente se entenderá este orgulho estampado em sua bandeira azul, amarela e verde com uma Cruz de Malta circundada por uma inscrição: "Alto  e Meia Volta, Volver".

E o povo deste país é sempre o culpado pelas tentativas de melhorar de vida, ofensa máxima ao pensamento comedido de sua elite, sempre preocupada em manter a população satisfeita com muito trabalho escravo, ali chamado de salário mínimo.

Qualquer melhoria nos indicadores salariais e do poder aquisitivo são imediatamente combatidos pelo Ministério da Austeridade com a subida razão que o trabalho enobrece o homem.

A mídia deste país também é motivo de chacota no exterior pelo seu elevado índice de manipulação da opinião pública. Os estudiosos paraguaduristas tem dificuldade de compreender o fenômeno que alguns batizaram maliciosamente, diga-se, de "me engana que eu gosto".

Paraguaduras já recebeu a visita de escritores famosos. Kafka jogou a toalha lá, confessando que sua pena era incapaz de alcançar a realidade paraguadurenha. Invocou Shakeaspere com seu MacBeth para descrever a realidade ultrapassada e traiçoeira do país. Saiu também fazendo gracinhas como era de esperar: "Há algo de podre no Reino da Dilmanarca".

Pudera, em Paraguaduras há um acordo tácito entre a elite dirigente de variados setores e poderes que é zelosamente respeitado por todos: "temos que combater a corrupção"... dos outros, leia-se, a corrupção alheia, porque a da elite é familiar e aceita como legítima defesa contra a modernidade civilizada que insiste em taxar grandes fortunas.

Imagine que a Rainha de Paraguaduras ousou ser honesta e governar em desacordo com a nobreza. Escândalo nacional, divulgado incessantemente pela Rede Golpe, onde já se viu, controlar o tesouro real e viver frugalmente. 

Após um longo processo conspiratório a Rainha Má foi deposta e condenada à pena capital que em Paraguaduras é assistir TV aberta 12 horas por dia sem direito à vida inteligente. Assim aprende a não bancar a honesta...

Porto Alegre, 18 de abril de 2016.

Edu Cezimbra